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domingo, 14 de março de 2021

HISTÓRIAS QUE DEVE LER ANTES DE AFIRMAR QUE NÃO GOSTA DE TEX – 2ª PARTE

Se gosta de BD, mas considera o género western ultrapassado, se não conhece Tex, ou leu apenas algumas histórias avulsas, e não tem opinião formada, ou ainda se é fã, mas gostaria de ler algumas das aventuras que marcaram uma época, então este texto é para si.

HISTÓRIAS QUE DEVE LER ANTES DE AFIRMAR QUE NÃO GOSTA DE TEX – 2ª PARTE[1] 

TEX .ED. HISTÓRICA 77 (Brasil)
Mescaleros! - TEX 151 - 154 (MAI – AGO 1973), Argumento de G.L. Bonelli e arte de G. Letteri. No Brasil: Mescaleros (TEX 62-64; TEX 2ED 62-64; TXC 203-206; TEH 77).

Sinopse: Nos arredores de Nogales, próximo da fronteira entre os Estados Unidos e o México, um bando de Mescaleros ataca e rouba trens, diligências e ranchos, desaparecendo de seguida sem deixar pistas, na região montanhosa dos Coronados, deixando para trás um rasto de morte e destruição.

Os Rangers Tex, Carson, Kit e Tigre, chamados pelo exército para investigar o caso, perseguem o bando após assalto a uma diligência em que o único sobrevivente ouve o nome do líder: Lucero! No entanto, apesar de todos os seus esforços, a perseguição aos Mescaleros revela-se frustrante e apenas comprova que são extremamente organizados, bem informados, e não se comportam como índios: procuram não deixar sobreviventes, não escalpam os inimigos, apenas se interessam por valores, e procuram por todos os meios esconder os seus rastos

Lucero, que foi criado e educado na missão de San Xavier de onde fugiu após matar o padre que o educou, é também Dom Fábio Esqueda, rico proprietário e criador de gado, pelo que informado pelo seu espião, que o seu nome tinha sido identificado como líder dos Mescaleros, decide eliminar tudo e todos os que o possam identificar.

Comentário: Mais do que um western considero esta narrativa como um policial, em que os agentes da lei perseguem e procuram capturar um bando de assaltantes que espalham o terror e a morte, conseguindo escapar sem deixar rastos graças a um esquema muito bem elaborado pelo seu líder. Tex enfrenta nesta aventura um dos inimigos mais inteligentes, que antecipa os seus movimentos, que lhe coloca inúmeras dificuldades, e que apesar de todos os seus esforços não o consegue enfrentar cara a cara.

Aventura que foge, claramente, à típica aventura bonelliana, em que tudo é preto e branco! Lucero tem personalidade, carisma, e divide o protagonismo com o próprio Tex ofuscando-o em grande parte da narrativa. Quanto ao desfecho, é dramático e inesquecível, e sem dúvida um dos mais bem elaborados pela mente de G.L. Bonelli.  

A destacar ainda a pequena participação de Cochise, o chefe dos Apaches Chiricahuas, irmão de sangue de Tex, e um dos personagens secundários mais importantes na série, com participação em cerca de dezena e meia de aventuras.

TEX 1ª ED. 177 (ITÁLIA)
7ª Il messaggio dei Dakotas – TEX 166 - 168 (AGO – OUT 1974), Argumento de G.L. Bonelli e arte de G. Ticci. No Brasil: A noite dos assassinos (TEX 58; TEX 2ED 58; TXC 218-220; TEH 84; TEF 01).

Sinopse: No estado de Montana, num vale situado próximo das montanhas rochosas, Tex e os seus parceiros descobrem uma tribo de centenas de índios Dakotas, famintos e esqueléticos, que aguardam, desesperadamente, há meses, a chegada das provisões.

Enquanto Kit Willer e Jack Tigre ficam na aldeia a caçar para alimentar a tribo, Tex e Carson dirigem-se ao forte para acelerar a entrega das provisões, onde, rapidamente, descobrem que o atraso na entrega dos suprimentos foi intencional e faz parte de um plano criminoso elaborado pelo agente indígena, cujo sucesso depende do extermínio de toda a tribo.

Comentário: Aventura claramente bonelliana, do princípio ao fim, que apresenta um herói duro, implacável, que não hesita a ultrapassar os limites legais para castigar os culpados, que enfrenta um vilão que se esconde sobre a capa de cidadão honesto, mas que é capaz das piores atrocidades.

Western puro, com um ritmo narrativo muito dinâmico, com muitas cenas de ação e um desfecho ao nível de toda a narrativa, com o vilão a ter um fim horrível.

História classificada pela maioria dos fãs como obra-prima, e como uma das melhores histórias de sempre, pelo que a considero de leitura obrigatória.

PRANCHA DE TICCI
Assalto al treno - TEX 179 - 180 (SET – OUT 1975), Argumento de G.L. Bonelli e arte de G. Ticci. No Brasil: Assalto ao trem (TEX 71; TEX 2ED 71; TXC 231-232; TEH 90; TEF 01; SAT 02).

Sinopse: Em Willcox, Tex e Carson capturam os quatro elementos da quadrilha Runyon que roubou 80000 dólares em ouro do trem, da Southern Pacific, no posto de abastecimento localizado na cidade abandonada de Pantan.

O produto do roubo não é encontrado e o único sobrevivente, Greg Carver, no interrogatório a que é submetido, após a captura, apesar da recusa em colaborar pelo que é condenado a 28 anos de prisão em Yuma, faz, inadvertidamente, referência a um quinto elemento.

Considerando real a existência de um informante, Tex, com a colaboração de Ben Farrel, e da Well`s Fargo, elaboram um ardiloso plano para proporcionar ao condenado a ilusão de liberdade e segurança, e leva-lo a, involuntariamente, revelar a localização do ouro roubado e a identidade do cúmplice na sombra.

Comentário[2]: “História recomendada para quem não conhece Tex, capaz de agradar a todos os gostos e na minha opinião, umas das mais adequadas da série para a transposição para a nona arte. O tema, o ritmo narrativo, os diversos cenários que possibilitariam excelentes imagens e o suspense criado pela localização do ouro e pela identidade do quinto cúmplice, são ingredientes que poderiam contribuir para um excelente filme.”.

ED. MONDADORI (ITÁLIA)
Caccia all uomo - TEX 183 - 185 (JAN - MAR 1976), Argumento de G. Nolitta e arte de F. Fusco. No Brasil: Caçada humana (TEX 68-69; TEX 2ED 68-69; TXC 235-237; TEH 92).

Sinopse: No trilho dos esqueletos, em pleno deserto de Las Piedras, na direção da fronteira com o México, Tex captura o jovem Andy Wilson que feriu gravemente o xerife Tom Kenyon quando este tentou executar um mandato de captura por homicídio, no rancho duplo B, nas proximidades de Springville.

Na viagem de regresso a Springville, Andy salva a vida de Tex em mais do que uma ocasião quando poderia tê-lo matado, e livrar-se do julgamento que o espera, e da sentença, que em último caso poderia ser a forca. Atitude que leva o ranger a considerar a inocência do jovem e a prometer-lhe um julgamento justo.

Infelizmente, o encontro com o xerife Lonnegam e o juiz Maddox, de Água Fria, vai revelar-se trágico para o pobre fugitivo e impedir o Ranger de cumprir o prometido.

Comentário: Nolitta apresenta-nos um herói diferente do herói idealizado pelo seu pai: um Tex igualmente duro e implacável com os inimigos, mas falível, que se deixa surpreender, e que demonstra sentimentos, como raiva, frustração e indignação. O desenrolar da história é imprevisível e repleto de volte-faces, com o leitor a não conseguir antever o que se segue, e quando se perspetiva um regresso a Springville, onde o jovem seria julgado justamente, eis que Nolitta altera completamente o rumo expetável dos acontecimentos e cria um desfecho trágico para o jovem deixando por esclarecer a sua inocência.

Aventura que é uma verdadeira obra-prima, que passados 45 anos após a sua publicação continua a ser considerada pela grande maioria dos admiradores do personagem como uma das melhores histórias de sempre, razão que só por si justifica a inclusão nesta listagem.

PRANCHA DE GALEP
10ª El Muerto - TEX 190 – 191 (AGO SET 1976), Argumento de G. Nolitta e arte de A. Galleppini. No Brasil: El Muerto (TEX 112; TEX 2ED 112; TXC 242-243; TEH 96; ATX 07).

Sinopse: Um misterioso pistoleiro, com o rosto deformado por queimaduras e que se apresenta como El Muerto, lidera um bando de criminosos nas brutais agressões, primeiro a Jack Tigre, e mais tarde a Kit Willer, com o único objetivo de obrigar Tex a um duelo no cemitério de Pueblo Feliz.

Desconhecendo as razões e recusando-se a duelar, Tex tenta surpreender o bando em Sunsetville, no entanto, a tentativa revela-se infrutífera e Tex fica completamente à mercê do grupo de criminosos, que, estranhamente, devido à ordem do seu líder, o deixam em liberdade relembrando-o do encontro marcado.

É em Pueblo Feliz, como determinado por El Muerto, que Tex, finalmente, fica a conhecer a identidade do misterioso pistoleiro, as razões do seu ódio por ele, e o porquê do duelo se realizar, especificamente, no cemitério daquele povoado.

Comentário: Segunda história de Tex escrita por Nolitta, segunda obra-prima! El Muerto é, simultaneamente, inspirada e homenagem aos filmes de Sérgio Leone,” A trilogia dos dólares”, como os apreciadores do western spaghetti, certamente, não deixarão de constatar após leitura da história.

Tex enfrenta um dos inimigos mais perigosos, que humilha o seu amigo e o seu filho, que o força a duelar onde pretende, e que o leva a duvidar da capacidade de o vencer no duelo. Quem é El Muerto? Por que razão pretende obriga-lo a um duelo no cemitério de Pueblo Feliz? Toda esta narrativa de ódio e vingança gira em torno destas duas questões, com Nolitta a criar uma trama muito bem elaborada, sem pontas soltas, sempre em crescente de tensão e suspense, com o leitor a ter a mesma perceção dos acontecimentos do herói. Imperdível!

PRANCHA DE NICOLÓ
11ª Trapper! – TEX 193 – 196 (NOV 1976 – FEV 1977), Argumento de G.L. Bonelli e arte de E. Nicoló. No Brasil: Trapper! (TEX 120-124; TEX 2ED 120-124; TXC 245-248; TEH 98).

Sinopse: Em Saint Louis, Tex e os seus parceiros ao salvarem de um atentado Tom Hogan, dono da companhia de peles Missouri, envolvem-se numa verdadeira guerra pelo negócio das peles com a Rocky Mountains Company, de Jackson, que utiliza todos os meios ao seu alcance para absorver a Missouri e, desta forma, competir com as grandes companhias de peles, como a Hudson Bay.

Ao auxiliarem uma caravana da Missouri, que estava a ser atacada pelos índios Snake, aliados da Rocky, Tex e Tigre são capturados, e só não morrem torturados num poste devido à intervenção de Wanaima, uma índia que Tex deixou em liberdade após assassinar o marido.

Esta providencial intervenção vai proporcionar a Tex e Tigre uma ténue tentativa de sobrevivência! Em vez de morrerem torturados num poste, vão ser caçados por todos os guerreiros que queiram participar, num ritual índio, em que a vida ou a morte dos condenados apenas depende da ligeireza das suas pernas: A corrida da flecha!

Comentário[3]: Narrativa bem construída, estruturada, intensa, constituída por pequenos episódios interligados que tem como pano de fundo o comercio das peles. Considero-a um western puro, com muitas cenas de ação e de humor, estas protagonizadas por Pat Mac Ryan, conhecido por Pat, o Irlandês.

Pat é um dos grandes personagens secundários da série, surgiu pela primeira vez na aventura “La valle trágica”, publicada em 1963, no Nº 33 da série mensal, e desde então conta-se cerca de dezena e meia de participações. Seja como caçador, lenhador ou lutador, o ingénuo gigante irlandês está sempre envolvido em confusões contribuindo desta forma para que as aventuras em que participa tenham muita ação e humor.

PRANCHA DE FUSCO
12ª I ribelli del Canada – TEX 203 – 207 (SET 1977 – JAN 1978), Argumento de G. Nolitta e arte de F. Fusco. No Brasil: Missão em Great Falls (TEX 131-134; TEX 2ED 131-134; TXC 255-259; TEH 102).

Sinopse: Em Great Falls, no norte de Montana, Tex e Jim Brandon, capitão da Polícia Montada Canadense, não conseguem impedir que Pierre Goudret, vulgo Big Bear, liberte da prisão o seu primo Roger, (perigoso revolucionário procurado pelos EUA e Canadá por fomentar a revolta entre diversas tribos indígenas), ficando ambos feridos.

Enquanto Roger é um idealista, Big Bear é um assassino que vê na revolta das tribos uma possibilidade de enriquecer, pelo que a “sociedade” dos dois representa um barril de pólvora para toda a região. Cientes do perigo iminente que os dois representam, e recuperados dos ferimentos sofridos, Tex e Jim disfarçam-se de caçadores e iniciam a perseguição entrando nos territórios de língua francesa do Canadá, controlados pelos rebeldes, na tentativa de os capturar e evitar, desta forma, a rebelião generalizada que poderá causar milhares de mortos.

Comentário[4]: Esta é mais uma história que eu não me canso de ler e reler! Aventura fantástica, enriquecida com referências históricas aos conflitos entre britânicos e franceses nos territórios de língua francesa do Canadá, emocionante, cheia de tensão, intercalada com momentos de humor tão ao gosto de Nolitta, e um desfecho dramático e inesperado. Os personagens secundários dividem o protagonismo com os heróis, são bem caracterizados, Big Bear um assassino implacável e frio, Roger Goudret idealista e sonhador e, o mais controverso e interessante, o traidor e assassino Donovan.

A destacar os desenhos fantásticos de Fusco, que ilustram magnificamente a região do Canadá, palco desta aventura, e mais uma participação do capitão Jim Brandon, que divide o protagonismo com Tex.

COLLEZIONE STORICA
A COLORI 101 (ITÁLIA) 
13ª  i guerrieri venuti dal nord – TEX 242 - 245 (Dez 1980 – Mar 1981), Argumento de G. Nolitta e arte de A. Galleppini. No Brasil: O sinal de Cruzado (TEX 157-159; TXC 294-297).

Sinopse: Um grupo de jovens guerreiros Navajos abandona a aldeia de Águia da Noite e segue Cruzado, e o seu bando de Paiutes, que, na busca de glória, roubam e assassinam os colonos da região.

Tex Willer, conhecido entre os índios como Águia da Noite, após tomar conhecimento do rastro de destruição e morte provocado pela passagem do bando, juntamente com Jack Tigre, segue o grupo com o objetivo de deter Cruzado e trazer os jovens guerreiros Navajos para casa.

Objetivo que se revela extremamente difícil de alcançar, com Tex e Tigre a terem de enfrentar a fúria dos habitantes da região, que sofreram perdas irreparáveis com a passagem do bando, o exército, que organizou uma expedição punitiva, Cruzado e o seu bando de Paíutes, que não aceitam que os Navajos abandonem o bando, e o clima inóspito e o caminho de regresso, que no seu conjunto, se revelarão dramáticos e mortais para os sobreviventes.

Comentário: Provavelmente a história de Tex escrita por Nolitta que mais polémica gerou quando foi publicada pela primeira vez. Aventura dramática, que foge claramente ao western tradicional, que tem como protagonistas, Tex no papel de chefe dos Navajos, Águia da Noite, e o fiel Tigre.

Nolitta apresenta-nos um herói muito humano e que comete demasiados erros, caracterização do personagem que os fãs de G.L. Bonelli nunca aceitaram por considerarem que este Tex não é o verdadeiro.

Pelo tipo de história, por apresentar uma faceta de herói pouco vista até então, e por ser uma das minhas histórias preferidas, “O sinal de Cruzado” teria de ter, forçosamente, lugar nesta proposta de leitura.

14ª  Il solitario del West - TEX 250 - 252 (AGO – OUT 1981), Argumento de G. Nolitta e arte de G. Ticci. No Brasil: O solitário do Oeste (TEX 163-165; TXC 303-305).

Sinopse: Tex e Kit Willer integram uma expedição técnico-científica, ao istmo do Panamá, com o objetivo de verificar a possibilidade de construir um canal que ligue o oceano Atlântico ao Indico.

Em Cartagena, e antes da partida de expedição, o “Guard”, o navio da expedição, fica, inexplicavelmente, retido por 15 dias a aguardar decisão das autoridades locais, e em Porto Belo, local onde a expedição abandona o navio e entra na selva, encontram muitas dificuldades em arranjar carregadores entre os habitantes, uma explosão destrói viveres que estavam classificados como equipamentos científicos, e o fotógrafo e os dois marines da escolta são atacados pelos índios.

Com a entrada da expedição na selva, os acidentes e os ataques dos índios sucedem-se, dizimando os integrantes da expedição, e retardando o seu avanço, levando os sobreviventes a acreditar que os eventos, que têm sido alvo, não se tratam de uma mera casualidade.

Comentário: Aventura inspirada em factos históricos, a expedição científica ao istmo do Panamá, que o autor aproveitou para “extrair” os heróis do seu habitat natural e inseri-los na selva panamiana. Narrativa que combina, de uma forma quase perfeita, a típica aventura nolittiana, repleta de ação e aventura, mas também drama, ironia e suspense, com o herói bonelliano, duro e implacável. Talvez devido a esta conjugação, “O solitário do Oeste” ou “Selva cruel” como também é conhecida, é, provavelmente, a história escrita por Nolitta mais apreciada pelos seus críticos. Curiosamente, narrativa que a única semelhança que possui com o género western é os protagonistas vestirem-se como cowboys!

A salientar a primeira aparição do fotografo Timothy O`Sullivan, personagem que Nolitta criou inspirando-se no imigrante irlandês, Timothy Henry O`Sullivan, que participou na verdadeira expedição ao Panamá, e que nos EUA se tornou um famoso fotojornalista com trabalhos memoráveis sobre a guerra de secessão.  Depois desta aventura, O`Sullivan tem mais algumas participações na série, destacando-se a participação na aventura Il killer senza volto onde tem um papel fundamental na identificação do assassino.

PRANCHA DE TICCI

TEX ESP. FÉRIAS 2 (BRASIL)
15ª Il deserto di Mojave - TEX 254 - 256 (DEZ 1981 – FEV 1982), Argumento de G. Nolitta e arte de F. Fusco. No Brasil: O vale da morte (TEX 160; TXC 307-309; TEF 02).

Sinopse: Em Las Vegas, Califórnia, onde se encontra de passagem com o seu filho Kit, Tex Willer impede que o velho amigo, Moses Hewitt, cometa suicídio por não conseguir um empréstimo que lhe permita pagar os salários atrasados aos seus operários que trabalham na extração de boráx, em pleno vale da morte, no deserto Mojave.

Hewitt está à beira da ruína devido concorrência desleal da companhia Nevada Borax que utiliza os índios Shoshones, como mão-de-obra, em condições desumanas e mortais. A informação prestada por Hewit contraria, completamente, as garantias dadas por Luther Denison, o gerente da Nevada Borax, quando se encontraram no caminho de Las Vegas, que os Shoshones teriam tratamento e condições de trabalho iguais aos homens brancos.

Decididos a esclarecer a situação dos Shoshones e a punir os responsáveis, caso se comprove que o povo está a ser escravizado, Tex e o seu filho deslocam-se às jazidas de bórax, em Furnace Creek, em pleno Death Valley, onde vão descobrir a terrível realidade de um povo, e enfrentar uma organização criminosa que inclui insuspeitos inimigos.

Comentário: Narrativa tipicamente nolittiana, repleta de volte-faces e intrigas, que mantém os heróis e o leitor na ignorância, sobre os verdadeiros responsáveis, até próximo do desfecho final.

TEX 1ª ED. 276 (ITÁLIA)
16ª  La grande minaccia – TEX 276 - 277 (OUT - NOV 1983), Argumento de G. Nolitta e arte de A. Galep No Brasil: A grande ameaça (TEX 182-183; TXC 329-330).

Sinopse: Nos arredores de Cedar City, uma família e uma caravana de mórmons são completamente chacinados por misteriosos assassinos mascarados que deixam, no local, apenas duas palavras enigmáticas: “Mountain Meadow”.

Em Cedar City, Tex, que chefiava a caravana dos mórmons massacrada juntamente com Kit e Jack Tigre, encontra-se com Moses Boglum, o líder da comunidade, que, profundamente consternado com a situação, revela o trágico incidente ocorrido vinte anos antes que pode estar relacionado com os massacres atuais, não obstante não se vislumbrar qualquer relação além de ter ocorrido em Montain Meadow.

Apesar dos esforços de Tex e os seus parceiros, as investigações efetuadas revelam-se inconclusivas, e pouco contribuem para o esclarecimento da situação. Contudo, o aparecimento de Almon Kirtland, considerado louco pelos mórmons, que escapa à vigilância dos familiares, e, como se fosse um profeta, passeia a cavalo pela cidade fazendo revelações sobre a fatídica noite, coloca os heróis na pista certa.

Esta nova pista vai forçar Boglum a revelar toda a verdade sobre “Mountain Meadow”. Uma verdade terrível, que que poucos conhecem, e que procuravam a todo o custo esconder, mas que se revelará crucial para explicar o porquê das atrocidades praticadas pelos assassinos mascarados.

Comentário: Inspirado num fato histórico, o massacre de uma caravana em Mountain Meadow, Nolitta cria esta belíssima história, que é um autêntico policial de investigação e mistério.

Notas finais:

[1] Antes de iniciar a leitura não deixe de ler a 1ª Parte.

[2] Leia a análise na integra em: Obras primas bonellianas - Assalto ao trem

[3] Leia a análise à aventura em: Trapper - obra prima bonelliana

[4] Leia a análise à aventura em: A outra face

segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

HISTÓRIAS QUE DEVE LER ANTES DE AFIRMAR QUE NÃO GOSTA DE TEX – 1ª PARTE

Em Maio último, aproximando-se a data da publicação de mais um número da Revista do Clube Tex Portugal, neste caso o décimo segundo, e mais uma vez, à semelhança de outras ocasiões, encontrava-me sem ideias e sem tempo. A revista sai normalmente em junho, pelo que faltava cerca um mês para o Mário fechar a edição. Parece bastante tempo, no entanto sou bastante lento a escrever, e gosto de escrever textos longos, sobre uma história, um escritor ou desenhador, ou artigos de opinião. Assuntos que exigem muita pesquisa e análise de informação, para fundamentar as minhas opiniões e, consequentemente, tempo, que como referi era muito escasso. Perante este cenário restava-me duas opções: não escrever nada para esse número, ou, escrever um texto fora do meu registo habitual, mais curto, baseado na minha experiencia pessoal e que exigisse menos trabalho de bastidor. Ok, posso escrever um texto nesses moldes, pensei eu, mas sobre que assunto? Artur Coelho, que redigiu o texto A Lenda de Tex (Colecção Bonelli #1) resolveu o meu problema quando escreveu sobre Tex e o género western o seguinte: “...é um dos poucos exemplos a atrair público na cultura pop contemporânea que um género, o western, que foi imensamente popular nos anos 50… … Género que hoje apenas sobrevive como memória cultural, com o gosto popular afastado dos mitos da vida na fronteira do velho oeste… …Não sendo um personagem (bem como um género) que me atraiam particularmente,…”.


É inegável que o género western já não tem a popularidade dos anos 50! Quanto a este aspeto nada a dizer. Também é verdade que gostos não se discutem, no entanto, para se gostar é preciso conhecer, e para se poder afirmar veementemente que não se gosta de algo, neste caso de Tex, é necessário conhecer minimamente o personagem, as suas aventuras e o seu universo. É esse o propósito do texto que se segue, apresentar uma listagem de histórias que apresente o herói, os seus autores e as suas histórias, a quem não o conhece, mas também a quem leu apenas algumas histórias avulsas e não tem uma opinião fundamentada. Para os texianos da velha guarda, que tal como eu conhecem toda a vida editorial do personagem, as propostas de leitura que se seguem não deixam de ser uma excelente oportunidade para reler aquelas histórias que marcaram a nossa juventude.

HISTÓRIAS QUE DEVE LER ANTES DE AFIRMAR QUE NÃO GOSTA DE TEX – 1ª PARTE

Em formato de talão de cheques, mais precisamente 17 x 8cm, com 32 páginas mais capas, em que cada página incluía apenas uma tira, “Il totem misterioso”, a primeira história de Tex, criada pela dupla Giovanni Luigi Bonelli (argumento) e Aurelio Galleppini (desenhos), foi publicada em Itália em setembro de1948. Foi neste formato, conhecido por “striscia”, muito popular na velha bota no pós segunda guerra mundial, e nos anos que se seguiram, que as aventuras de Tex foram publicadas até 1967, originando 36 séries. O formato atual e conhecido como bonelliano, de 16cm x 21cm, com três tiras por página, somente surgiu em 1958, e até 1968 republicou todas as histórias anteriormente publicadas séries de “striscia”. A primeira história original publicada no atual TEX mensal italiano foi “La caccia”, no Nº 96 da coleção.

Capa do Nº1 de TEX em "Striscia"

Os argumentos nesta fase eram muito condicionados pelas poucas páginas de cada número[1], pelo que as tramas eram compostas por pequenos episódios, interligados, que no seu conjunto completavam a aventura. Quanto à arte, o desenhador tinha de desenhar e arte finalizar as 32 tiras e uma capa, em cada semana. Produção absolutamente fantástica e impossível de atingir nos dias de hoje em que a maior parte dos desenhadores não o consegue, nem sequer, mensalmente!

Itália, passados setenta e dois anos desde o primeiro número, TEX mudou drasticamente! Primeiro o personagem: inicialmente foragido, depois Ranger[2], Chefe e Agente indígena dos índios Navajos (que o conhecem por Águia da Noite), viúvo de Lilyth (índia Navajo que lhe salvou a vida), e pai de Kit Willer. Tex é tudo isso: várias facetas numa única personagem! Depois as publicações: atualmente existem em circulação, neste país, diversas publicações para além da coleção principal que já ultrapassou as setecentas e vinte edições e que continua a apresentar-se no formato bonelliano, a preto e branco, incluindo aventuras normalmente longas que se prolongam por duas, três, e por vezes, quatro edições. Também a preto e branco são publicadas as coleções TEX WILLER[3], as aventuras de Tex quando era jovem, MAXI TEX[4], TEX MAGAZINE[5] e TEX ALBO SPECIALE[6].

Quanto às edições coloridas, nos últimos anos a SBE aderiu, finalmente, ao colorido na tentativa de ganhar novos leitores e novos mercados, e com esse objetivo, estão em publicação COLOR TEX[7] e TEX ROMANZI A FUMETTI[8].

Além das edições de originais já referidas, a editora publica uma panóplia de coleções, nos mais diversos formatos, a preto e branco e colorido, que republicam, não só histórias selecionadas, (álbuns luxuosos), mas também coleções completas como TUTTO TEX, TEX NUOVA RISTAMPA E TEX CLASSIC.

No Brasil o cenário não é muito diferente pois existem uma série de coleções que apenas publicam histórias originais, como TEX[9], TEX ALMANAQUE[10], TEX ANUAL[11], MAXI TEX[12], TEX GIGANTE[13] e TEX WILLER[14]. Ainda coleções de originais, mas coloridas, estão em publicação TEX GRAFIC NOVEL[15] que segue a italiana TEX ROMANZI A FUMETTI e o TEX ESPECIAL COLORIDO[16] que replica o original italiano COLOR TEX.

Também no que diz respeito a republicações o cenário brasileiro é muito semelhante ao italiano, existindo disponíveis mais de meia dúzia de coleções que republicam diferentes fases da vida editorial do personagem: TEX COLEÇÃO, TEX EDIÇÃO HISTÓRICA, TEX OURO, TEX PLATINUM, AS GRANDES AVENTURAS DE TEX, SUPERALMANAQUE TEX e TEX EM CORES.

Perante os milhares de edições, as centenas de aventuras, e as dezenas de coleções disponíveis, é necessário ser muito criterioso nas histórias a recomendar, porque existem histórias muito datadas e ingénuas, principalmente as publicadas nos primeiros anos, mais dedicadas à gama infanto-juvenil, e uma má primeira impressão pode criar falsas conclusões.

Tendo isto em conta, e que não é razoável apresentar uma seleção que contemple os setenta e dois anos de vida editorial do personagem, a seleção que apresento é extraída do período de maior sucesso, aquele que muitos, entre os quais eu me incluo, consideram a fase de ouro[17]. Adicionalmente, para que a seleção seja representativa desse período, procurei que os principais artificies, argumentistas e desenhadores, tivessem pelo menos uma aventura selecionada. Para mostrar a complexidade do universo texiano, procurei ainda incluir alguns dos principais personagens secundários, quer amigos quer inimigos, e, por fim, inclui vários tipos de narrativas e géneros, que fogem ao western típico, procurando demonstrar que Tex é muito mais que um western.

Nesta fase, de cerca de duas décadas, as aventuras foram todas escritas por apenas três argumentistas: G.L. Bonelli, todo o período e a solo entre 1964 e 1976, Sergio Bonelli, o seu filho que assinava as suas histórias como Guido Nolitta, entre 1976 e 1985, e Claudio Nizzi[18] que escreveu apenas três histórias entre 1983 e 1985. Estes três escritores produziram dois tipos de herói e narrativa: As aventuras escritas por G.L. Bonelli e C. Nizzi que se enquadram no Tex bonelliano e as aventuras escritas por G. Nolitta que criou uma versão alternativa do personagem, que podemos chamar de Tex nolittiano.

Prancha de Ticci
O Tex bonelliano[19] - “herói clássico, que muito raramente tem dúvidas, que identifica os vilões com um simples olhar, um verdadeiro justiceiro que é simultaneamente juiz e carrasco, que não olha a meios para obter o que considera justo, mesmo que tenha de violar as leis para o conseguir. Um Tex que é quase infalível nas suas deduções, que parece indestrutível, quase um super-herói, que enfrenta inúmeros fora-da-lei sem ser ferido. Para Bonelli pai as personagens não possuem densidade psicológica, tudo é preto e branco, existindo uma clara separação entre bons e maus. Nas suas narrativas[20], Tex apresenta-se normalmente acompanhado pelos seus “pards[21]”, são lineares, em que tudo é esclarecido, sem pontas soltas, não existindo espaço para a comicidade[22] e para o humor. Excetuando as histórias em que é introduzido o género fantástico, a maioria das suas tramas poderão ser consideradas puro western”.

O Tex nolittiano[23] - “personagem moderno, menos ousado e arrogante, dependente de outros, da sorte ou destino, que duvida das suas capacidades, que erra nas suas avaliações e deduções, que é surpreendido frequentemente pelos seus inimigos, que por vezes falha nos seus compromissos e objetivos, e que por vezes é derrotado e sofre perdas - circunstancias em que se revela incapaz de proteger os seus amigos ou os que estão à sua guarda. Mas é também um protagonista mais realista e calculista nos momentos de perigo, que pondera os riscos e é capaz de fazer pactos com os inimigos. O Tex nolittiano é ainda mais bem-humorado, sarcástico com os inimigos e adversários e brincalhão com os parceiros, mais introspetivo nas suas deduções, capaz de demonstrar sentimentos como raiva, frustração ou indignação. (…) Quanto às histórias idealizadas por Nolitta são muito mais de que western puro! A sua habilidade para a mistura dos diversos géneros literários na mesma narrativa e a sua atração pela comicidade, elemento indispensável nas suas tramas, assim como suspense, torna-as difíceis de classificar. São por norma mais complexas, imprevisíveis, repletas de volte-faces, com maior dimensão psicológica e dramatismo, repletas de mistério e tensão em que o autor inclui pequenos episódios quotidianos para alternar ou quebrar os ritmos narrativos. O herói apresenta-se normalmente sozinho ou acompanhado por apenas um dos seus parceiros, os personagens secundários têm personalidade, dificilmente classificados como bons ou maus, os desfechos, devido ao seu estilo narrativo de esconder os factos do leitor, são interessantes e por vezes surpreendentes.”.

Relativamente aos desenhadores, foram vários os artistas que deram o seu contributo nesta fase, alguns deles apenas como desenhadores fantasma, que só viram os seus créditos reconhecidos muito à posterior, nas reedições, como Francesco Gamba, Pietro Raschitelli ou Virgilio Muzzi, que efetuavam trabalho a lápis em vinhetas, ou pranchas, ou arte-finalizavam o trabalho do desenhador que assinava a história. Muzzi acabou por ser um caso muito particular, pois além de ter trabalhado como desenhador fantasma, acabou por assinar diversas histórias mas sempre com o rosto do herói a ser desenhado por Galep.

Ilustração de Muzzi

Quanto a desenhadores efetivos na série, que desenharam histórias completas, foram apenas seis. Mas comecemos pelo criador gráfico, Aurelio Galleppini, ou Galep como assinava os seus trabalhos e ficaria conhecido no mundo dos fumetti, com uma dedicação ao personagem de uma forma quase exclusiva, até ao seu falecimento em 1994. Nos primeiros anos, Galep apresentava um traço muito simples, pouco detalhado e por vezes incaracterístico, fruto de trabalhar na série, à noite, depois de um dia inteiro de dedicação à série principal, Occhio Cupo, da obrigatoriedade de criar, semanalmente, 32 tiras mais a capa, e da utilização frequente de diversos desenhadores fantasma[24] para poder cumprir os prazos, mas que acabavam por descaracterizar a sua arte.

Após o cancelamento da série Occhio Cupo, e principalmente, após a entrada de Guglielmo Letteri para a série que permitiu a Galep dividir a responsabilidade da criação gráfica das histórias com outro desenhador, o seu traço e a qualidade dos seus trabalhos melhoraram substancialmente, apresentando então um traço simples, agradável, mas bastante detalhado e personalizado, com cenários quase sempre presentes. Nos últimos anos da sua vida, afetado por um problema grave de visão que o deixou quase cego de uma vista, Galep continuou a trabalhar, mas a qualidade do seu trabalho já não era a mesma, sendo visíveis os erros de perspetiva, ou as falhas de proporção de objetos, do corpo humano ou de animais, como por exemplo nos cavalos.

Vinheta de Galep

Galep, além de ser responsável pela criação de cerca de duas mil capas para todas as séries de Tex, é o desenhador com o maior número de pranchas publicadas, ultrapassando as vinte mil, sendo também o desenhador de Tex com o maior número publicado num único ano: 783 pranchas em 1965! 

Letteri, o segundo desenhador a criar graficamente uma aventura completa de Tex, é também o segundo com maior numero de pranchas desenhadas, ultrapassando a marca das 11000, o criador gráfico de um dos personagens mais carismáticos da série, o Bruxo Mouro, e o desenhador da história mais longa com 586 páginas, Ritorno a Pilares[25]. Desenhador que se especializou nas histórias “estranhas”, as que “fogem” ao western tradicional e que incluem o sobrenatural, o mistério ou o terror, mas também as que se desenrolam em zonas áridas ou que envolvem mexicanos ou seitas chinesas. Possuidor de um traço que alguns acusam de falta de dinamismo, mas muito limpo, elegante, detalhado e facilmente identificável, com uma interpretação do protagonista muito sorridente e carismática. Faleceu em 02 de Fevereiro de 2006, com 80 anos de idade, 42 anos dos quais dedicados a desenhar Tex Willer.

Vinheta de Letteri

Giovanni Ticci, nascido em Siena a 20 de abril de 1940, foi o terceiro que se seguiu no que diz respeito à produção gráfica de histórias completas com a aventura, “Vendetta Indiana”, publicada pela primeira vez na série RODEO, no formato de talão de cheques, no inicio de 1967. Fruto da sua experiencia no mercado internacional, principalmente o americano, para onde produziu histórias de faroeste e ficção com seu grande amigo e mestre, Alberto Giolitti, (Gilbert), Ticci, fortemente influenciado por este, e pelo tipo de desenho produzido no mercado americano, entrou na série de uma forma fraturante, apresentando pranchas belíssimas, carregadas de detalhes que transmitiam sensações de movimento e profundidade, graças ao seu traço inovador para a época, limpo, realista e dinâmico, e à sua capacidade de desenhar com igual maestria, dos mais diversos ângulos e enquadramentos, os mais diversos ambientes e cenários.

Vinheta de Ticci

Atualmente, com oitenta anos de vida - cinquenta e dois a desenhar o personagem - Ticci é o desenhador em atividade com o maior numero de pranchas desenhadas, tendo ultrapassado a marca das 7000 pranchas, mas o seu estilo alterou-se profundamente, o seu traço foi simplificado, apresentando-se mais “sujo” e rabiscado, com menos detalhe e menos profundidade, continuando no entanto a produzir belíssimas pranchas, com o “seu” Tex a continuar a ser utilizado como modelo para os desenhadores mais novos.

Erio Nicolò começou por trabalhar em parceria com Galep, o seu primeiro trabalho, “Dramma nell prateria”, foi publicado na série NEBRASCA em julho de 1964, mas somente cinco anos depois vê publicado, na série normal de Tex, uma história inteiramente por si desenhada: “La paga di giudas”. Possuidor de um traço suave, límpido, agradável, que muitos consideram “romântico”, mas também singular e inconfundível, o “seu” Tex é menos corpulento e mais humano, os personagens apresentam feições agradáveis e as mulheres são belíssimas. Faleceu em 1983, com apenas 63 anos de idade, deixando como obra 23 histórias de Tex, sendo que uma delas é conhecida como uma das obras-primas de G. L. Bonelli: “l grande intrigo”.

Vinheta de Nicolò

Fernando Fusco foi o desenhador que se seguiu com a aventura “L'idolo di emeralddo”  escrita por G.L. Bonelli, publicada no Nº 168 da série mensal, em 1974. Detentor um traço agressivo, nervoso, algo rabiscado, e por vezes caricatural, que não deixava ninguém indiferente, logo na primeira aventura deixou a sua marca, apresentando um Tex diferenciado. Apesar de serem visíveis algumas semelhanças com o Tex de Ticci, o “seu” era mais agressivo, irónico e determinado. Nas histórias seguintes completou a sua interpretação do herói tornando-o o mais corpulento das interpretações efetuadas por todos os desenhadores desta fase. Retirado em 2010 para se dedicar a outra das suas paixões, a pintura, continua a ser o quarto desenhador com mais pranchas desenhadas do personagem, com quase sete mil, logo a seguir a Galep, Letteri e Ticci. Faleceu a 10 de Agosto de 2015 com 86 anos de idade.

Vinheta de Fusco

Para terminar o leque dos desenhadores, Vicenzo Monti, cujo traço se confunde como traço do seu grande amigo e colega Ticci, no qual se inspirou fortemente, sendo as diferenças mais notórias, o traço mais espesso e o menor dinamismo nas cenas. Monti, que entrou para a série em 1982, teve uma pequena contribuição nesta fase, desenhando apenas três histórias [26].

Apresentado o herói, definidos os critérios de seleção, apresentados os principais responsáveis do sucesso no período selecionado, resta apresentar as propostas de leitura. São dezasseis aventuras que recomendo, cerca de 15% das histórias produzidas neste período, ordenadas pela data de publicação da coleção mensal italiana de TEX, com indicação do argumentista, do desenhador, e das coleções brasileiras onde podem ser lidas. Apreciem!

TEX Nº 40  2ª Edição (Brasil)
El Morisco – TEX 101 – 103 (Mar - Mai 1969), Argumento de G.L. Bonelli e arte de G. Letteri. No Brasil: O Bruxo Mouro (TEX 40-42; TEX 2ED 40-42; TXC 146-149; TEH 57).

Sinopse: Na fronteira com o México, após investigarem um misterioso desaparecimento de armas que envolveu mortes atrozes de suspeitos envolvidos, e a descoberta de um estranho amuleto, Tex e Carson encontram-se em Pilares com o Bruxo Mouro.

Na casa do Bruxo, os dois parceiros rapidamente percebem que o caso do desaparecimento das armas e o caso que levou o amigo a chama-los estão diretamente ligados, com o Bruxo a fornecer diversas informações relevantes para os casos, a esclarecer o que representa o misterioso amuleto e o mortal segredo que ele transporta.

Decididos a desvendar todos os mistérios que envolvem este caso, Tex e Carson, aliam-se aos Guardas Rurais Mexicanos e penetram na Serra Encantada, onde vão enfrentar o misterioso Senhor das Pedras, o bando de El Dorado, e uma tribo descendente de Astecas, liderada por Tulac, que pretende recuperar a glória dos seus antepassados e expulsar os Mexicanos do que consideram o seu território.

Comentário: “O Bruxo Mouro” é tudo menos um western, sendo essa a principal razão, para além de ser uma belíssima história, para a inclusão nesta seleção. Esta narrativa enquadra-se no tipo de histórias alternativas, ou mesmo “estranhas”, bastante frequentes no universo texiano, que incluem o mistério, paranormal, sobrenatural, horror ou a ficção, neste caso particular a aventura é uma mistura de western e o fantástico.

A participação do Bruxo Mouro, ou El Morisco, é a segunda razão para escolha desta aventura! Personagem criado por G. L. Bonelli em 1967, um dos maiores amigos de Tex e um dos personagens mais fascinantes e emblemáticos do universo texiano, que aparece normalmente como um dos protagonistas neste tipo de histórias. Egípcio de nascimento, é um estudioso e um cientista, que possui conhecimentos nas mais diversas áreas, como medicina, egiptologia, botânica, zoologia, das escrituras antigas e das ciências ocultas, etc.

A escolha desta aventura não agradará certamente a todos, mas cumpre os principais objetivos: Mostrar que as aventuras de Tex são muito mais do que um western e apresentar um dos principais personagens secundários do universo!

TEX Ed. Histórica (Brasil)
Il ritorno del Drago – TEX 109 – 113 (NOV 1969 – MAR 1970), Argumento de G.L. Bonelli e arte de G. Letteri. No Brasil: A volta do Dragão (TEX 85-87; TEX 2ED 85-87; TXC 156-160; TEH 61).

Sinopse: Em Texas City, os Rangers Tex e Carson, ao investigarem um caso de tráfico de ópio que já custou a vida a cinco agentes, descobrem o envolvimento de uma organização criminosa que julgavam ter destruído num passado recente: a seita chinesa conhecida por Dragão Negro.

Os dois amigos, juntamente com Kit Willer e Jack Tigre, ao seguirem uma pista deixada pelo último Ranger a investigar o caso, o falecido Fred Bolton, envolvem-se numa verdadeira guerra com a seita que controla as casas de fumo e o tráfico de ópio e domina, através do medo e do terror, toda a comunidade chinesa de Texas City e Galvestown.

Após vários confrontos em que sai derrotado, nos subterrâneos que lhe servem de esconderijo, o Dragão Negro não consegue destruir totalmente os documentos que comprometem a organização e tem um gesto que permite a Tex identifica-lo, e, desta forma, desmantelar definitivamente a seita. Contudo, a eliminação da seita trata-se apenas de uma pequena vitória! Os diversos nomes parcialmente destruídos pelo fogo, encontrados num caderninho que o Dragão tentou destruir, assim o comprovam! A destruição da organização está apenas no princípio e a próxima pista passa por um tal de …navides, de Hermosillo, México.

Comentário: Aventura típica do universo texiano mas que não se enquadra no western típico: O tráfico de droga, as organizações criminosas e secretas, (neste caso uma seita chinesa), e os malefícios que provocam nas comunidades, em que a grande maioria dos cidadãos são honestos e apenas procuram uma vida melhor, são o pano de fundo desta fantástica aventura magistralmente desenhada por Letteri.


Edição livrarias (Itália)
Sulle piste del Nord – TEX 121 – 124 (NOV 1970 – FEV 1971), Argumento de G.L. Bonelli e arte de G. Ticci. No Brasil: A cruz trágica (TEX 50-52; TEX 2ED 50-52; TXC 170-173; TEH 65).

Sinopse: Em resposta a um telegrama do capitão Jim Brandon, da Policia Montada Canadense, Tex, o seu filho Kit, Carson, e Jack Tigre, deslocam-se à região dos cem lagos para ajudar a esclarecer seis misteriosos homicídios de homens brancos, encontrados num lago, amarrados numa cruz cravejada de símbolos indígenas, mortos por flechas negras.

No decorrer das investigações o grupo é vítima de vários atentados organizados por homens extremamente poderosos e influentes na comunidade, sendo que num deles, Kit Willer é capturado vivo pelos índios. Com a vida do seu filho em perigo, Tex e restantes elementos do grupo, reforçados com o capitão Brandon e três soldados, vão entrar na floresta, e no território indígena, com o objetivo de impedir que Kit se transforme no sétimo homem branco a ser encontrado morto, amarrado numa cruz, vítima de uma flecha negra.

Comentário: Apesar de a ação decorrer no Canadá, “A cruz trágica” trata-se um western puro, com a inclusão de diversos elementos típicos característicos do género: O comboio, o tiroteio na cidade, a luta no saloon, a presença dos índios, dos soldados, dos traficantes de armas, dos caçadores de peles etc. Mas é muito mais do que isso, é um trama complexo que aborda assuntos atuais como tráfico de influencias, abuso de poder e opressão dos mais fracos.

A destacar também a participação de Jim Brandon, um dos grandes amigos de Tex, personagem que teve a primeira aparição como simples sargento no Nº 10 da série mensal e que, desde então, tem sido presença assídua em aventuras ambientadas no seu país, neste caso já como capitão.

Com uns desenhos fantásticos de Ticci, a terceira história de Tex com a sua assinatura, “A cruz trágica”, justamente classificada como uma das melhores histórias de Tex por uma grande maioria dos admiradores do personagem, é uma aventura de leitura obrigatória não só para todos os que pretendem conhecer o herói mas também para todos os que se dizem fãs.


TEX NUOVA RISTAMPA
(Itália)
Il figlio di Mefisto - TEX 125 - 128 (MAR – JUN 1971), Argumento de G.L. Bonelli e arte de A. Galleppini. No Brasil: O filho de Mefisto (TEX 101 - 103; TEX 2ED 101 - 103; TXC 174 - 177;TEH 67).

Sinopse: Nas ruinas do castelo do barão Samedi, onde se encontra soterrado vivo, Mefisto utiliza os seus poderes sobrenaturais e consegue contactar e convencer o seu filho Blaky a vingar a sua morte antes de ser devorado vivo pelos ratos que infestam as ruinas.

Seguindo as instruções de seu pai, Blaky viaja para a Florida e liberta Loa, a sacerdotisa vudu aliada de Mefisto, que se encontrava prisioneira dos Seminoles, e inicia o estudo dos livros secretos do progenitor, adquirindo poderes sobrenaturais ao ponto de conseguir matar os seus inimigos à distância.

Algum tempo depois, Blaky, que alterou o seu nome para Yama, o deus hindu da morte, começa a cumprir o que prometeu a Mefisto atacando seus inimigos: primeiro Yampas, o chefe dos Seminoles, e posteriormente Tex Willer e os seus amigos. No entanto, não obstante todos os poderes sobrenaturais que têm à sua disposição, existe algo que o impede de atingir Tex e os seus amigos diretamente, algo que ele não consegue compreender e que pode colocar em causa a sua vingança.

Comentário: Como já referi, o universo texiano inclui diversas histórias que apelidei de “estranhas” devido ao facto de estarem completamente desenquadradas do género western. “O filho de Mefisto” é mais uma dessas histórias. Narrativa que se pode enquadrar no género terror e sobrenatural, é uma história de ódio e vingança protagonizada por Mefisto e o seu filho Yama, magos, com poderes sobrenaturais, conhecedores da magia negra e de rituais satânicos, inimigos mortais Tex e dois dos mais importantes personagens do universo texiano.


SUPERALMANAQUE TEX
(Brasil)
Il grande intrigo - TEX 141 - 145 (JUL – NOV 1972), Argumento de G.L. Bonelli e arte de E. Nicoló. No Brasil: A grande intriga (TEX 107 - 110; TEX 2ED 107 - 110; TXC 193 - 198; TEH 73 – 74; SAT 01).

Sinopse[27]: Vítima de uma bem orquestrada intriga, Tex é acusado e condenado a vinte anos de prisão, na penitenciária de Vicksburg. Não satisfeito com a condenação, um misterioso personagem, que ambicionava apoderar-se das jazidas de ouro e prata, existentes na reserva Navajo, tenta por todos os meios livrar-se daquele que considera ser o único obstáculo para a realização dos seus intentos. As tentativas para eliminar o agente indígena sucedem-se vertiginosamente, umas a seguir às outras. O fracasso de cada uma, leva o homem na sombra a planear uma nova, com novos elementos. Durante um terço da história, Tex e os seus pards limitam-se a reagir, impotentes para contra-atacar. Somente quando Carson conhece Clem, o homem que lidera os índios que caçam sem piedade os fugitivos da penitenciária, surge a oportunidade de descobrir os conspiradores.”

Comentário: História longa, 512 páginas, complexa, estruturada, que aborda assuntos contemporâneos como abuso de poder e corrupção, em que os heróis enfrentam um inimigo poderoso, na sombra, que desfere ataques como se estivesse a movimentar as peças num jogo de xadrez e cuja identidade só é revelada nas últimas páginas.

Mais uma obra-prima de G.L. Bonelli, em minha opinião, “A grande intriga” é uma das dez melhores histórias de sempre, pelo que considero-a de leitura obrigatória para todos os que se interessam pelo personagem.

(CONTINUA)

Principais referencias:

Tex@uBC - uBC Fumetti

ComicsBox :: Database di Comics e Fumetti

DIME WEB

Sergio Bonelli Editore

Albi a striscia di Tex - Wikipedia

Albi di Tex - Wikipedia

Legenda:

              TEH - Tex Edição Histórica

              TEX 2E - Tex 2ª Edição

              TXC – Tex Coleção

              TXO - Tex Ouro)

              ATX - Almanaque Tex

              TEF – Tex Especial Férias

              TAV – Tex e os Aventureiros

              SAT – Superalmanaque Tex



[1] Convertidas as 32 tiras para o formato atual, correspondem apenas a dez páginas e duas tiras. Muito pouco se considerar-mos que uma aventura de Tex, publicada no TEX mensal, tem no mínimo 110 páginas.

[2] Em algumas traduções encontramos a expressão “Guarda Rural”.

[3] Periodicidade mensal, formato bonelliano com apenas 64 páginas, inclui histórias em continuação que podem prolongar-se por 4 ou 5 edições.

[4] Periodicidade anual, formato bonelliano, inclui aventuras longas e completas, normalmente com mais de 290 páginas.

[5] Periodicidade anual, formato bonelliano com 176 páginas, inclui duas histórias completas, uma das quais muito curta, apenas 32 páginas).

[6] Periodicidade anual, formato 21cmx29,7cm, com 240 páginas, inclui uma história completa.

[7] Periodicidade semestral, formato bonelliano, colorido com 160 páginas, que alterna a publicação entre uma e cinco histórias curtas (32 páginas).

[8] Periodicidade semestral, formato franco-belga, colorido com 48 páginas e uma história completa.

[9] Periodicidade mensal, formatinho a p&b com 114 páginas, publica histórias retiradas da coleção TEX mensal italiana.

[10] Periodicidade anual, formatinho a p&b, atualmente com 176 páginas, inclui histórias retiradas do TEX MAGAZINE. Até ao Nº 48 as histórias eram, maioritariamente, retiradas da coleção italiana, entretanto descontinuada, ALMANACCO DEL WEST.

[11] Periodicidade anual, formatinho a p&b, inclui aventuras longas e completas extraídas da coleção italiana MAXITEX.

[12] Periodicidade anual, formatinho a p&b, inclui aventuras longas e completas extraídas da coleção italiana MAXITEX.

[13] Periodicidade anual, formato 21cmx29,7cm, com 240 páginas, inclui histórias completas extraídas da coleção italiana TEX ALBO SPECIALE.

[14] Periodicidade mensal, formato bonelliano com apenas 64 páginas, inclui histórias em continuação que podem prolongar-se por 4 ou 5 edições.

[15] Periodicidade semestral, formato franco-belga, colorido com 48 páginas.

[16] Periodicidade semestral, formato bonelliano, colorido com 160 páginas, que alterna a publicação entre uma e cinco histórias curtas (32 páginas).

[17] Como idade de ouro considera-se o período decorrido entre meados da década de sessenta até meados da década de oitenta. Em minha opinião, para ser mais preciso, e para justificar a seleção de histórias, esta fase inicia-se com a primeira aventura integralmente desenhada por Letteri, o segundo desenhador a desenhar uma história completa do personagem: “Piombo caldo”, publicada no final de 1964, em striscia, na série Nebraska. Também interpretação pessoal, a fase conclui-se com a saída de Nolitta, no Nº 292 da série mensal publicado em Fevereiro de 1985: “Uno sporco imbróglio”.

[18] Após a saída de Nolitta em 1985, Nizzi tornar-se-ia o principal escritor da série de Tex, papel que desempenha até 2010, ano em que Mauro Boselli o substituiu como argumentista principal.

[19] Definição do Tex bonelliano extraída do texto: A OUTRA FACE

[20] Na fase de ouro do personagem.

[21]Pards” ou parceiros: o Ranger Kit Carson, Kit Willer o seu filho, e Jack Tigre um índio Navajo.

[22] Exclui-se os diálogos provocadores entre Tex e seus “pards”, especialmente com Carson.

[23] Definição do Tex nolittiano extraída do texto: A OUTRA FACE

[24] Desenhadores como Guido Zamperoni, Mario Uggeri, Lino Jeva, Pietro e Francesco Gamba e Virgilio Muzzi.

[25] “Ritorno a Pilares”, a aventura mais longa de Tex foi escrita por G. Nolitta e publicada em 1993 na série regular italiana nos números 387 a 392.

[26]Un mondo perduto” é uma das três histórias desenhadas por Monti, no entanto, Monti apenas a concluiu. A história foi iniciada por Nicolò que viria a falecer antes de a concluir sendo Monti o escolhido a terminar. 

[27] Sinopse extraída do texto: EVOLUÇÃO OU PERDA DE IDENTIDADE??