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sexta-feira, 4 de agosto de 2023

FIM DO EPISÓDIO

Ao anoitecer, em plena floresta, Fraser, o renegado que liderou uma tribo de Apaches e massacrou a população de Goldena, só para se vingar, procura desesperadamente escapar a Tex Willer que pretende puni-lo pelos crimes cometidos. No meio do silencio da floresta, ouve-se várias vezes a voz de Tex que procura aterrorizar o foragido: “Aonde pensa que vai, Fraser?”, “A morte segue você, mas não tem pressa!”, “Você só morrerá ao anoitecer, …”.

Fraser sente medo antes de ser ferido e capturado por Tex, mas o verdadeiro terror sente após a captura, quando o Ranger revela as suas intenções: “Mate-me, Willer.” – Suplica Fraser. “Não. Mas vou fazer-lhe um presente, Fraser.” – Responde Tex.

Tex devolve a Fraser o revolver com uma única bala e o abandona, no meio da floresta, ferido num braço e numa perna, sem se poder mover, e com uma terrível escolha para fazer.

Este é o final[1] de “Território Apache”! Um desfecho marcante, que deixa por revelar o destino do criminoso e que leva o leitor a imaginar o que poderá ter sucedido naquela noite: terá Fraser cometido suicídio ou terá sido devorado pelos lobos? Terá sido salvo por alguém de passagem? Passados mais de cinquenta anos desde a publicação desta aventura pela primeira vez continuamos sem o saber. Provavelmente nunca o saberemos, mas este tipo de final, aberto e não revelado, possibilita sempre o regresso dos vilões.

Outro final na mesma linha, e muito bem conseguido, é a conclusão[2] de “O ouro do Colorado”! Nesta aventura, Tex e os seus parceiros embarcam Gilas e dois sobreviventes do bando que massacrou os habitantes de um Pueblo Navajo, numa canoa sem remos, num trecho do rio Colorado bastante turbulento, com muitos rápidos e corredeiras, deixando nas “mãos” do destino a punição dos três bandidos, sabendo, no entanto, que a probabilidade de saírem do rio com vida era extremamente diminuta.

Uma das últimas vinhetas da história mostra a canoa, com os três bandidos a bordo, a desaparecer no rio turbulento, deixando à imaginação dos leitores o que o destino lhe reservou. Destino, que tal como na aventura anterior, e até ao momento, não foi revelado por nenhum dos escritores do personagem.


O Tipo de final das aventuras já referidas, em que o herói não pune diretamente os criminosos e os coloca à mercê do destino, ou de outros, encontra-se nos meus finais favoritos.

Além dos já referidos acrescento o desfecho[3] de “Cão Amarelo”, em que Tex após vencer, num duelo, o chefe dos índios Utes que liderou o ataque dos Utes e Hualpais à reserva Navajo, corta-lhe o cabelo, humilhando-o desta forma, retirando-lhe a honra e prestígio. A humilhação sofrida é uma pequena parte do castigo, a principal punição é dada pela própria tribo que abandona o seu líder transformando-o num pariá. Este desfecho é uma pequena variante dos anteriores, mas também é um final aberto que não revela o sucedido com o chefe indígena[4].


Outro tipo de conclusão, que está presente nas histórias de Tex, mas não tão frequentemente, também ele aberto e igualmente interessante, e que proporciona sempre o regresso dos vilões, é o desfecho em que algo ocorre, sem que os protagonistas consigam intervir, que impossibilita o confronto físico entre heróis e vilões.

A conclusão[5] de “O filho de Mefisto” é um excelente exemplo deste tipo: traído por Yama, Thomas aceita ajudar Tex e os seus pards a capturar o mago e a sacerdotisa do Vudu, Loa. O que consegue com o auxílio da tripulação do veleiro! No entanto, quando tudo apontava para uma conclusão tradicional em que os heróis vencem e capturam os vilões, Gianluiggi Bonelli decide surpreender e criar um desfecho grandioso e de acordo com a aventura: antes de entregar os prisioneiros a Tex e seus pards, Thomas decide atirar ao mar todos os objetos que Yama utilizava nas suas práticas de magia negra, e que o aterrorizavam, mas assim que o primeiro artefacto toca na água, algo de sobrenatural ocorre! Quase instantaneamente levanta-se uma violenta tempestade. Os fortes ventos e a elevada agitação marítima quebram as amarras do veleiro e arrastam-no para o alto-mar impedindo a entrega. Tex fica convencido que não voltará a ver Yama, mas as últimas vinhetas deixam outras possibilidades em aberto ao revelarem a história de um veleiro, com os mastros despedaçados, pilotado por uma figura sinistra e que é visto apenas nas noites de tempestade.

A conclusão das histórias de forma a viabilizar o retorno dos vilões é muito interessante e por vezes origina novas aventuras, tão ou mais interessantes que as anteriores. As sagas de Mefisto, Yama, Proteus e o Tigre Negro são a prova e bons exemplos da utilização deste recurso.

E quando o autor decide eliminar o vilão, excluindo, definitivamente, qualquer hipótese de retorno? Qual o melhor desfecho nesta situação? Nestes casos prefiro a conclusão trágica, a que surpreende os heróis e os próprios leitores! Neste tipo de desfecho encontro três variantes que considero muito interessantes: o vilão coloca termo à própria vida para escapar à punição; um evento trágico ocorre que impede a captura dos vilões; a punição dos vilões é aplicada por personagens secundários.

Relativamente à conclusão em que o vilão comete suicídio, relembro dois desfechos, de duas aventuras clássicas consideradas pela grande maioria dos fãs como das melhores histórias do personagem: Marcus Parker, o poderoso e misterioso homem de Flagstaff, que organizou um plano maquiavélico para se livrar de Tex Willer, e expulsar os índios Navajos da reserva, e aceder dessa forma às jazidas de ouro que existiam no território, é surpreendido, no seu escritório, pelos seus inimigos e ex-cúmplices. Confrontado com as provas e percebendo o fim que o esperava, Parker decide ser ele próprio a traçar o seu destino e, aproveitando um momento de polidez dos seus inimigos, comete suicídio. Este é o final[6] de “A grande intriga”, aventura toda ela fantástica, uma verdadeira obra prima, incluindo o desfecho, com um vilão extramente poderoso e inteligente, ao ponto de conseguir que Tex seja condenado a vinte anos de prisão na penitenciária de Vicksburg por um crime que não cometeu, e com o autor a conseguir manter o suspense, sobre a identidade do conspirador, ao longo de quinhentas páginas, só a revelando quando Parker é surpreendido no seu escritório.


A outra fantástica aventura, com um final[7] igualmente excecional e digno da personagem, e da narrativa, é “Chamas de guerra”. Num escritório em Richmond, Tex encontra-se com Howard Walcott que o chamou com a promessa de lhe revelar a verdade sobre os seus sobrinhos e os eventos ocorridos, muitos anos antes, durante a guerra da secessão, e nos quais Tex também se viu envolvido. As confissões que faz, dos crimes que cometeu, são terríveis, e levam Tex a perder completamente a cabeça, ao ponto de afirmar “… você é o ser mais abjeto e desprezível que já conheci na minha vida!” … “Deveria matá-lo Walcott!”.

A intenção de Tex é levá-lo para a prisão e vê-lo condenado à forca, no entanto, convencido por Walcott - que sofre de uma doença incurável - que pretende a abertura de um inquérito Federal para apurar toda a verdade, e reabilitar a memória dos seus sobrinhos, deixa-se ludibriar, permitindo a Walcott ficar sozinho no escritório e por termo à vida.

Quanto a conclusões de aventuras em que algo ocorre que impede a captura, saliento duas aventuras, também pertencentes à idade de ouro de Tex, e também consideradas das melhores histórias de sempre pela grande maioria dos seus fãs: O desfecho[8] de “A noite dos assassinos”, em que ao ser informado, por um cúmplice, que iria ser preso pelos Guardas-rurais[9], Nick Billing, o agente indígena dos índios Dakota, responsável pelo plano que condenou toda a tribo à morte para se apossar das jazidas de ouro existentes na reserva, tenta, desesperadamente, fugir num trenó puxado por cães, atravessando um rio congelado. Apesar da fina camada de gelo e da hesitação dos cães em prosseguir, Billing não hesita! Não aceita de modo nenhum ser capturado e força os cães a avançar até ao inevitável: O gelo acaba por ceder “engolindo” o trenó e o seu ocupante. Billing perde a vida, mas escapa à justiça dos homens.

O desfecho[10] de “Mescaleros” é igualmente dramático e inesquecível! É longo, prolongado, (dezoito páginas), emotivo e brilhantemente ilustrado por Letteri: ferido com alguma gravidade nas costas, perseguido pelos Guarda-rurais, Don Fábio Esqueda, aliás, Lucero, o chefe dos índios Mescaleros que aterrorizam a região americana de Nogales, tenciona refugiar-se na missão de San Xavier onde foi criado. Infelizmente para ele o destino tem outros planos! As dores provocadas pelo ferimento nas costas incomodam-no cada vez mais. Cansado e febril não consegue evitar a queda do cavalo que agrava ainda mais a sua situação, reabrindo e infecionando a ferida.  Apoquentado por febre alta e delirando, Lucero esporeia selvaticamente o cavalo até que “a piedosa mão da morte” termina com o sofrimento do pobre animal. Apesar do seu estado, e inexplicavelmente, consegue chegar à missão, como se fosse impelido, por uma entidade superior, a devolver a cruz do padre Michele, roubada, anos antes, quando fugiu. Lucero, um dos adversários mais inteligentes que Tex já enfrentou, morre, antes da chegada de Tex e os seus pards à missão, sem nunca se terem encontrado frente-a-frente.

O final em que os criminosos escapam ao confronto com os heróis e são punidos por personagens secundários também me agrada particularmente. Nas histórias de Tex gostaria de referir duas aventuras concluídas desta forma: “Vingança de índia” e “Sul profundo”.

Em “Vingança de índia” a narrativa poderia ter sido concluída com a expulsão do coronel Arlington, do exército, pela responsabilidade do massacre ocorrido na aldeia de Alce-Preto. No entanto, e até para justificar o título da história, o autor resolveu mostrar o que se passou seis meses após, quando Nashya, a única sobrevivente do massacre, executa a impiedosa vingança: montada em Blanco, o corcel que pertenceu ao seu marido, Shedar, morto na chacina efetuada pelo exército, arrasta, furiosamente, o então civil Arlington até virar um farrapo humano. As últimas vinhetas mostram a índia a pendurar um escalpo no leito onde se encontram os restos mortais do seu marido. Um desfecho[11] duro, violento, marcante, mas também inesquecível e pouco visto nas páginas de Tex.


A conclusão[12] de “Sul profundo” é diferente! A punição do principal vilão da história também fica a cargo de um personagem secundário, mas não de uma forma violenta. Nesta aventura sobre racismo, realista, cativante, mas também algo amarga e triste, em que Tex não consegue proteger um negro acusado falsamente de homicídio, nem o jogador Edwin Doyle, que o tenta ajudar, o autor brinda-nos com um final muito bem conseguido e sobretudo … irónico: Eric Warner, o chefe dos assaltantes da Western National Bank de Salt Lake City, e o maior responsável por todas as dificuldades que Tex enfrenta, percebendo os riscos que corria ao permanecer na cidade, tenta atravessar o rio Jacks Creek para escapar ao Ranger. E vai consegui-lo, mas não da forma que esperava! Não encontrando um vau, e com a água mais subida que o normal, Warner arrisca a travessia mesmo não sabendo nadar, sujeitando-se ao pior. O que acabará por ocorrer: um tronco de arvore, arrastado pela corrente, afasta-o do cavalo e condena-o a morrer afogado, mas o incidente dá-se próximo de um pescador que, imediatamente, lhe atira uma corda para o salvar. Contudo, a situação altera-se tragicamente para Warner quando já se encontra a poucos metros da margem e o pescador o reconhece. Por capricho do destino, a única a pessoa que o poderia salvar de morrer afogado é, também, o negro chicoteado na noite anterior por um elemento do grupo liderado por Warner.

Por último, mas igualmente interessante e fascinante, destaco apenas mais um tipo, que me atrevo a classificar como “Nolittiano” devido à frequência com que se encontra nas narrativas de Tex escritas por Sérgio Bonelli, sob o pseudónimo de Guido Nolitta. Um desfecho prolongado, normalmente fechado, amargo, triste, em que herói, apesar de vitorioso, falha. As falhas ou perdas são tão relevantes que a sensação transmitida é de derrota e não de vitória!

São várias as aventuras escritas por Nolitta que que poderia referir, mas fico-me apenas por duas, cujos desfechos não vou descrever, mas cujas histórias desafio a ler para apreciarem este tipo de conclusão, pouco tradicional, mas bastante realista: “Caçada humana”, (Tex não consegue cumprir a promessa a Andy Wilson de ser julgado justamente e não consegue evitar o seu trágico fim), e “O sinal de Cruzado”, (Tex e Tigre falham completamente na missão de trazer de volta, à aldeia Navajo, mais de uma dezena de jovens guerreiros que a haviam abandonado para se juntar ao bando de Paiutes, liderado por Cruzado, nos roubos e assassinatos aos colonos da região).

Estes são alguns dos desfechos mais bem conseguidos que podemos encontrar nas centenas de aventuras de TEX. Mas existem outros, muitos outros, que poderia destacar, igualmente bem conseguidos, e igualmente brilhantes, mesmo nos finais mais tradicionais, em que o herói derrota o vilão, como no final de “El Muerto”.

Seja aberto ou fechado, o desenlace, conclusão, epilogo, fim do episódio ou como o queiramos apelidar, deve ser um ponto marcante da narrativa, seja ele emotivo, trágico, surpreendente, triste ou mesmo irónico. O mais importante é que, a forma como se conclui, melhore a narrativa e transforme uma história menos conseguida, numa aventura a recordar, e uma boa história, numa inesquecível, ou mesmo obra-prima, o que em minha opinião, nas aventuras referidas, foi plenamente conseguido, nas histórias clássicas de Tex era frequentemente atingido, e nas atuais raramente acontece.

Nota Final:

Como se depreende da leitura do texto, considero o desfecho uma parte muito importante da narrativa, e para demonstrar, como a conclusão pode melhorar ou piorar, consideravelmente, uma narrativa, vejamos o exemplo de “Vingança de índia”, que no Brasil, nas versões publicadas pela editora Vecchi, foi truncado e mutilado em oito tiras. Na versão original, descrita no texto e publicada em TEX COLEÇÃO e TEX ED. HISTÓRICA, Nashya provoca a morte de Arlington de uma forma barbara, violenta e sem piedade. Na versão publicada pela Vecchi, TEX Nº 2, e TEX 2ª ed. Nº 2, Arlington é morto com uma pancada na cabeça na sequencia do assalto à diligencia, num final simples, sem emoção, facilmente esquecível e claramente pior que o original.

Na época as revistas apresentavam publicidade nas suas páginas, e poderá ser essa a razão para os cortes. Atualmente, as histórias do Tex são publicadas, na sua grande maioria, em blocos múltiplos de 110 páginas - O que pode levar os argumentistas a não incluir determinadas cenas, para encaixar as narrativas nos blocos. Essa limitação, de ter de encaixar as narrativas nos blocos, poderá ter o mesmo efeito que os cortes efetuados pela Vecchi, no final de “Vingança de índia”, e ser uma das justificações para que os finais das histórias atuais sejam, frequentemente, insípidos, esquecíveis, e que pouco acrescentam às narrativas.

Lista de Histórias de Tex italiano, e sua correspondência no Brasil, ordenadas pela ordem de referência no texto:

·         Inferno a Rober City – TEX 108 - 109 (out-nov 69) – Texto: Gianluigi Bonelli – Arte: Giovanni Ticci.

Território Apache - TEX 16; T2E 16; TXC 154-156; TEH 60.

·         Lòro del Colorado – TEX 201-202 (jul-ago 77) - Texto: Gianluigi Bonelli – Arte: Giovanni Ticci.

O ouro do ColoradoTEX 129-130; T2E 129-130; TXC 253-254; TEH 101.

·         Scacco matto – TEX 233-236 (mar-jun80) - Texto: Gianluigi Bonelli – Arte: Giovanni Ticci.

Cão Amarelo – TEX 152-154; TXC 285-288; TEH 115.

·         Oltre il fiume – TEX 596-597 (jun-jul10) – Texto: Claudio Nizzi – Arte: José Ortiz.

Além do rio – TEX 498-499.

·         Il figlio di Mefisto – TEX 125-128 (mar-jun71) - Texto: Gianluigi Bonelli – Arte: Aurelio Galleppini.

O filho de Mefisto – TEX 101-103; T2E 101-103; TXC 174-177; TEH 67.

·         La trappola – TEX 141-145 (jul-nov72) - Texto: Gianluigi Bonelli – Arte: Aurelio Galleppini.

A grande intriga TEX 107-110; TEX 2ED 107-110; TXC 193-198; TEH 73-74; SAT 01.

·         Gli avvoltoi – TEX 297-299 (jul-set85) - Texto: Claudio Nizzi – Arte: Giovanni Ticci.

Chamas de guerra – TEX 204-206; TXC 350-352; TXO 04.

·         La fine dei comancheros – TEX 166-168 (ago-out74) - Texto: Gianluigi Bonelli – Arte: Giovanni Ticci.

A noite dos assassinos TEX 58; TEX 2ED 58; TXC 218-220; TEH 84; TEF 01.

·         L` ultimo poker – TEX 151-154 (mai-ago73) - Texto: Gianluigi Bonelli – Arte: Guglielmo Letteri.

Mescaleros – TEX 62-64; TEX 2ED 62-64; TXC 203-206; TEH 77.

·         Vendetta indiana – TEX 91 (mai68) - Texto: Gianluigi Bonelli – Arte: Giovanni Ticci.

Vingança de índia – TEX 02; TEX 2E 02; TXC 135-136; TEH 52; SAT 02

·         La casa sul fiume   TEX 209-210 (mar-abr78) – Texto: Gianluigi Bonelli – Arte: Erio Nicoló.

Sul profundo – TEX 138-139; TEX 2E 137-138; TXC 261-262; TEH 104.

·         Caccia all uomo – TEX 183-185 (jan-mar76) – Texto:Guido Nolitta – Arte: Ferdinando Fusco.

Caçada humana – TEX 68-69; TEX 2ED 68-69; TXC 235-237; TEH 99.

·         I quattro evasi TEX 242-245 (dez80-mar81) - Texto:Guido Nolitta – Arte: Aurelio Galleppini.

O sinal de Cruzado TEX 157-159; TXC 294-297; TEE A marca de Cruzado.

·         El Muerto -  TEX 190-191 (ago-set76) – Texto: Gianluigi Bonelli – Arte: Aurelio Galleppini.

Em Muerto – TEX 112; TEX 2E 112; TXC 242-243; TEH 96; ESB.

LEGENDA:

·         T2E – Tex 2ª Edição

·         TXC – Tex Coleção

·         TEH – Tex Edição Histórica

·         SAT – Superalmanaque Tex

·         TXO – Tex Ouro

·         TEF – Tex Especial Férias

·         TEE – Tex Edição Especial

·         ESB – Especial Sergio Bonelli



[1] TEX 2ª Ed. Nº 16 – Território Apache.

[2] TEX 1ª Ed. Nº 130 – Grande Canyon.

[3] TEX 1ª Ed. Nº 154 – O circulo de sangue.

[4] Contrariamente às histórias anteriores, “Cão Amarelo” teve continuação muitos anos depois, na aventura intitulada “Além do rio” de autoria de Cláudio Nizzi (TEX 1ª ED. Nº 498 – Além do rio e TEX 1ª ED. Nº 499 – A ponte de pedra).

 [5] TEX 1ª ED. Nº 103 – O veleiro maldito.

[6] TEX 1ª ED. Nº 110 – A sombra do patíbulo.

[7] TEX 1ª ED. Nº 206 – Fuga de Anderville.

[8] TEX 2ª ED. Nº 58 – A noite dos assassinos.

[9] Expressão que caiu em desuso, atualmente utiliza-se “Rangers”.

[10] TEX 2ª ED. Nº 64 – Os sinos dobram por Lucero.

[11] TEX ED. HISTÓRICA Nº 52 - Vingança selvagem.

[12] TEX 1ª ED. Nº 139 – Linchamento. 

PS: Texto publicado na revista Clube Tex Portugal Nº 18 em julho de 2023

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

A FLECHA QUEBRADA - TÍPICA AVENTURA NOLITTIANA

Nota introdutória

A aventura intitulada de “Caçada humana[1]” publicada em Itália no ano de 1976, na coleção mensal de Tex, tornou-se um marco histórico na vida editorial do personagem. Pela primeira vez foi publicada uma história de Tex Willer escrita por outro argumentista que não Gian Luigi Bonelli, que até então, com 67 anos de idade, havia escrito a totalidade das narrativas publicadas nos 182 números da coleção.

Na verdade, não se tratou de uma situação planeada mas sim de uma emergência! Um ano antes, o criador do personagem sofreu uma queda ao praticar esqui, que associado à avançada idade, o forçou a reduzir o volume de trabalho, pelo que houve necessidade de encontrar outro escritor, que numa primeira fase o substituísse enquanto recuperava, e, posteriormente, com ele partilhasse a difícil tarefa de escrever as aventuras de Tex Willer.

Sergio Bonelli, o filho de Gianluigi, sob o pseudónimo de Guido Nolitta, foi o voluntário para suprir esta necessidade e responsável pela “heresia” de o substituir, e durante os 9 anos que se seguiram, pela criação de 16[2] histórias, em que procurou imitar a forma de contar histórias do progenitor para não descaracterizar o personagem e as suas aventuras. Todavia, e apesar de contar com a preciosa ajuda do seu pai em determinadas cenas e diálogos, e apesar dos seus esforços em esconder o seu estilo narrativo, a verdade é que obteve um relativo sucesso, pois o seu herói e as suas histórias são muito diferentes das escritas pelo seu pai, como poderemos constatar na análise que se segue a uma das suas narrativas.
A flecha quebrada

No forte Washakie, Wyoming, enquanto aguarda com Kit Carson a caravana que transporta os mantimentos para os seus Navajos, Tex é persuadido por este e pelo comandante do forte, o major Stanton, a liderar uma pequena expedição às Blue Hills, em pleno território Sioux, com o objetivo de recuperar os restos mortais do capitão Richard Larrimer - morto um ano antes, juntamente com os vinte e cinco soldados e dois oficiais que compunham um destacamento do 5º de cavalaria.
O exército que tinha conseguido recuperar a maioria dos corpos dos militares falecidos, pouco tempo após a batalha, graças à assinatura de um tratado apressado em que cedeu aos Sioux, o território onde decorreu o confronto, já havia desistido de recuperar o corpo do capitão. No entanto, o surgimento de Tom Rampling – sargento que integrava o destacamento e tinha sido dado como morto – que recentemente recuperara a memória e que afirmava conhecer a exata localização do cadáver, bem como as pressões exercidas pelos familiares do capitão, forçaram o comandante do forte a autorizar a expedição, e a efetuar o pedido a Tex para a liderar. 

A entrada de qualquer expedição, sobre qualquer pretexto, no território dos Sioux, principalmente na zona das colinas, que passou a ser considerada sagrada para os índios após a batalha, já tinha sido recusada por Ongewa, chefe dos Sioux que os liderou na contenda com os soldados. Ainda assim, o major Stanton espera que Tex, devido ao seu prestígio junto dos povos indígenas devido ao facto de ser também Águia da Noite, o chefe dos Navajos, possa demover Ongewa dessa decisão.
A expedição liderada por Tex e composta por Donald e Steve Larrimer, irmão e filho do capitão falecido, cinco soldados e o sargento Tom Rampling, desloca-se até à fronteira do território Sioux onde encontra as primeiras dificuldades, e onde Tex começa a demonstrar, aos restantes elementos do grupo, os motivos por ter sido escolhido como líder.

Este é o ponto de partida de “A flecha quebrada[3]”, publicada pela primeira vez em Itália no verão de 1982, nos números 261 e 262 da coleção mensal de Tex, com os títulos “La freccia spezzata” e “Le colline della paura”. Nesta primeira fase da história, o autor utiliza um ritmo narrativo lento, com as pranchas sobrecarregadas de cartuchos e diálogos, procurando inserir o leitor na aventura. Apesar disso já são visíveis marcas nolittianas, como a ironia que tanto aprecia e que está bem patente nas provocações entre Tex e Carson, e também nas que estes lançam ao major Stanton, quando este faz o convite a Tex para liderar a expedição, ou nas críticas que faz ao comportamento dos militares[4].

A destacar também forma como o autor se “livra” de Carson! Em contraposição de ideias com o seu pai, Nolitta prefere, claramente, narrativas com o herói a solo ou apenas acompanhado por um dos seus parceiros. Neste caso preferiu, visivelmente, a narrativa a solo, uma vez que coloca Carson fora da expedição, logo nas páginas iniciais, sobre o pretexto de esperar pelas carroças de mantimentos.

Aparentemente, a grande dificuldade que esperava Águia da Noite nesta missão era a obtenção do Saken dos Sioux, de autorização para entrar nas Blue Hills. Suposição que se revela completamente errada! Logo na fronteira do território dos Sioux, o espantalho com uma caveira humana envergando uma jaqueta do exército, e que marca a entrada no território, despoleta a indignação e o nervosismo entre os integrantes do grupo, forçando Tex a usar a força para acalmar os soldados. Mostrando-se conhecedor dos hábitos e costumes indígenas, Tex interpreta corretamente o sinal e cumpre o ritual, impedindo, desta forma, o ataque à expedição pelos Sioux que se encontravam escondidos no bosque próximo, e conseguindo que os índios o levem à presença de Ongewa. Falta no entanto convencer o saken dos Sioux, o que não aparenta ser fácil: fruto da vitória sobre os soldados, outras tribos de guerreiros juntaram-se aos Sioux pelo que as decisões são agora tomadas em concelho de chefes, e, Mahonga, o chefe dos Tetons, recusa a entrada dos brancos nas Blue Hills, ofendendo Águia do Noite apelidando-o de “falso amigo do povo vermelho”, arrancando-lhe do peito o símbolo da irmandade dos povos vermelhos. Como consequência desta ação violadora das leis da hospitalidade, Ongewa autoriza a realização de um duelo entre os dois, no círculo da morte, que Tex, apesar da sabotagem da machadinha efetuada pelo feiticeiro Skinpah, vence, poupando no entanto a vida a Mahonga.
Este trecho da narrativa é muito mais intenso, repleto de ação, em que Nolitta apresenta um Tex que demonstra capacidades de liderança, duro, implacável, impulsivo e que não têm dúvidas. Vemo-lo na forma como impôs a disciplina aos integrantes do grupo quando se aproximaram da fronteira do território dos Sioux, mas também no modo como venceu o duelo e como castigou Skimpah pela “brincadeira” na preparação da machadinha para o duelo. O herói que nos é apresentado nestas cerca de quarenta páginas foge um pouco ao padrão nolittiano e está bem mais próximo do herói clássico idealizado por seu pai.
Após o duelo com Mahonga, e obtida a permissão para entrar nas Blue Hills, as dificuldades da missão pareciam, novamente, estar ultrapassadas, mas Nolitta decide “complicar”, e introduz um novo elemento na narrativa: o elemento fantástico! É Ongewa quem alerta Tex sobre a existência de um espirito, que provocou a morte de três guerreiros na zona para onde se dirige a expedição, tendo provocado ferimentos graves em outros dois, que o descreveram como um ser metade homem metade lobo, ágil, forte, cruel como uma besta, e que parece defender o território de qualquer intrusão. O Espirito maligno das Blue Hills! A referência ao espirito é muito breve, limita-se a poucas vinhetas e o leitor, tal como o herói, rapidamente o esquecem.
A viagem para as colinas é marcada por duas trágicas mortes como consequência de dois incidentes, aparentemente acidentais. A queda fatal de Wood – um dos soldados – no trilho de acesso ao penhasco onde o grupo tinha decidido passar a noite, e a morte de Douglas – outro dos soldados – vítima de picada de uma cascavel que se escondeu na sua sacola. Entre os dois incidentes, Douglas acusou Peters – um terceiro soldado – de ser o responsável pela morte de Wood tendo sido forçado a calar-se por ação de Rampling. Presumivelmente para impor a ordem! E tentou, sem sucesso, falar a sós com Tex. Nenhuma destas situações deixaram Tex em alerta, nem mesmo quando, logo após ter sido picado pela cascavel, Douglas não permitiu que Rampling o tratasse, tendo-o apelidado de “maldito assassino”.

Tex só se apercebe que algo está errado quando Haig, um dos soldados sobreviventes, em conversa com Rampling, refere “ (…) não vai demorar muito a achar sua maldita caixa!”. O único objetivo da expedição é recuperar os restos mortais do capitão Larrimer, pelo que Tex - tal como o leitor - são completamente surpreendidos ao ouvirem falar em caixa. “Que caixa?” Questiona Tex, ou “Ei, espere aí! De que diabo de caixa está falando, Haig?”. Mas é tarde, muito tarde! Rampling aproveita a estupefação de Tex e coloca-o sem sentidos com uma coronhada.

As duas mortes, as situações em que ocorreram, e o comportamento de Wood, não teriam passado despercebidos ao Tex de Gianluigi. Mas o herói de Nolitta tem outras características, e este trecho da narrativa é bem demonstrativo do herói nolittiano: moderno, humano, que comete erros de avaliação e que se deixa surpreender. Ainda neste excerto podemos observar outra marca distinta do autor, esta no modo de contar histórias: a forma como “esconde” os eventos do leitor, só os revelando no momento em que o herói tem conhecimento dos mesmos - o complô orquestrado pelos soldados e a existência de uma caixa contendo o dinheiro das guarnições do norte que estes procuravam recuperar.

Com os Larrimer presos e o herói inconsciente vítima da coronhada aplicada por Rampling, Nolitta decide, finalmente, revelar a verdade sobre os acontecimentos que culminaram no massacre das Blue Hills. Começa por nos apresentar a versão de Rampling, num flashback, em que o próprio Rampling conta, aos restantes elementos do grupo, as razões que o motivaram a regressar ao local da chacina, o que realmente aconteceu na noite que antecedeu a batalha, e como e porquê o capitão Larrimer foi morto.

Já com Tex recuperado, Rampling termina a sua versão explicando como tinha decidido executar, sem sucesso, o plano atribuído por ele ao capitão. - Logo após esconder a caixa com o dinheiro fora surpreendido e ferido pelos Sioux que o deixaram como morto.
Após terminar o relato dos acontecimentos da fatídica noite, o sargento confessa, também, a utilização dos Larrimer e do Chefe dos Navajos como instrumentos para a recuperação do dinheiro. As revelações sucedem-se, com Rampling a desdizer a versão inicial, de ser conhecedor do local exato da localização do corpo do capitão, e a assumir a responsabilidade das mortes de Wood e Douglas por se recusarem a participar na intriga, assim como a intenção de não deixar testemunhas.

Desde que o grupo chegou ao local da batalha que se sente a tensão no ar, a paisagem é sinistra, tétrica, como se existisse algo sobrenatural no local, o uivo dos coiotes torna o local ainda mais assustador e Tex decide aproveitar esse ambiente para deixar os soldados ainda mais nervosos, revelando-lhes o que Ongewa lhe tinha dito quando autorizou a expedição: que algo muito estranho habita a região! Inclui na descrição palavras como “Fantasmas, espíritos malignos e feitiçarias” para potenciar o medo nos integrantes do grupo.
Nesta fase da aventura Nolitta decide acelerar o ritmo narrativo, os acontecimentos, agora, sucedem-se uns a seguir aos outros, sem pausas, e os volte-faces também. Aproveitando a distração dos soldados provocada pela recuperação da caixa, e pelo estado de nervosismo em que se encontravam, devido ao coiote que não para de os atormentar com os seus uivos lamentosos, Tex consegue libertar-se e liquidar os dois soldados restantes, no entanto, quando parecia que ia retomar o controlo da situação, Rampling faz Steve refém ameaçando-o com uma faca no pescoço forçando Tex a render-se. Segue-se um novo volte-face, pois o sargento nem tem tempo de retomar o controlo da situação. Surgido de uma moita próxima, o Espirito das Blue Hills neutraliza Rampling com uma pancada de machadinha na cabeça, e mantem Tex sobre ameaça de uma pistola.

Afinal não se tratava de uma superstição indígena! Armado com uma simples machadinha, trajando peles e envergando uma mascara de lobo, o Espirito das Blue Hills é bem real e surgiu no momento oportuno para retirar o protagonista de uma situação que parecia perdida, provocando o terceiro volte-face em pouquíssimas pranchas.
Nolitta parece querer continuar a “brincar” com o leitor! Mantendo Tex sobre a ameaça do revólver, O Espirito das Blue Hills retira a mascara e revela a sua identidade, surpreendendo todos, inclusive o sargento Rampling que se recusa a acreditar que o capitão Larrimer, que ele julgava ter morto, esteja vivo e seja o responsável pela destruição dos seus planos.

A entrada em cena do Espirito das Blue Hills salvando o herói de uma situação, aparentemente, sem saída possível, e a forma como o autor “escondeu” a existência do “Espirito”, até ao momento da sua aparição, levando o leitor a pensar que não passava de um mito, são claramente marcas nolittianas.

Perante as inúmeras questões de Donald, que não consegue compreender as atitudes do irmão, Richard conta sua versão dos fatos, e o porquê de ter permanecido nas Blue Hills encarnando o “Espirito”, confirmando a versão de Rampling que escondeu a caixa com o dinheiro dos pagamentos, e que tencionava recupera-la caso saísse vivo do local.

Os familiares do capitão ouvem incrédulos a sua versão, recusando-se a acreditar que o honrado capitão Larrimer, afinal não é muito diferente do sargento Rampling, e que ambos não passam de dois canalhas dispostos a matar por dinheiro. Quem é Richard Larrimer? É esta a questão que autor parece colocar ao leitor. Uma pessoa honesta, honrada, disposta a fazer sacrifícios uma vida inteira pela sua família e que num momento de grande tensão tem um momento de fraqueza, ou, um canalha e assassino que enquanto a vida lhe correu de feição foi capaz de disfarçar a sua verdadeira natureza até ao momento em que lhe surgiu a oportunidade para enriquecer? As dúvidas são imediatamente dissipadas! Assim que o capitão termina a sua versão, dispara dois tiros sobre o sargento Rampling, matando-o a sangue-frio, preparando-se para fazer o mesmo a Tex, eliminando desta forma a única testemunha que o poderia incriminar. Todavia, os gritos e os pedidos dos familiares do capitão para não o fazer, permitiram a Tex aproveitar-se da distração momentânea do capitão, desarma-lo e assumir o controlo da situação.

Com o herói com a situação controlada, e com a verdade sobre o que aconteceu nas Blue Hills esclarecida, poder-se-ia pensar que o desfecho estava próximo. Nada mais errado! Nolitta ainda têm mais questões para colocar ao leitor, pelo que recupera, para a ação, um inimigo de Tex que o leitor, provavelmente, já havia esquecido - Mahonga - e acrescenta mais cerca de 35 pranchas à narrativa, que vão baralhar, novamente, a questão de quem foi o capitão Larrimer e quem é o verdadeiro protagonista desta aventura.
Sentindo-se humilhado por ter perdido o duelo com Águia da Noite, Mahonga lidera um numeroso grupo de guerreiros no ataque aos poucos sobreviventes da expedição às colinas. Apesar das inúmeras baixas provocadas pelos tiros certeiros de Tex, a situação é desesperante e tudo leva a crer que o chefe índio irá conseguir os seus intentos. Mas eis que surge um novo volte-face com um protagonista inesperado: Richard Larrimer, o capitão ignóbil, ladrão e assassino.

O ataque liderado por Mahonga provoca dois feridos, Donald e Steve Larrimer, sendo que Steve é ferido com gravidade no ombro direito e necessita urgentemente de tratamento. Perante a necessidade de cuidados imediatos do seu filho, e percebendo que os índios se preparavam para atacar novamente, Richard é acometido pelo instinto paternal e decide envergar a mascara de lobo, e interpretar, novamente, e pela última vez, o papel do Espirito das Blue Hills, esperando que os supersticiosos índios se afastem das colinas e os deixem em paz. A ação heroica do homem, que pouco tempo antes assassinou o sargento Rampling, a sangue-frio, permite salvar os poucos sobreviventes do grupo e matar Mahonga, numa luta corpo a corpo, uma vez que os índios reagem como esperado e fogem assustados.
O leitor fica novamente baralhado pelos acontecimentos e reformula novamente a questão! Quem é Richard Larrimer? Um canalha capaz de sacrificar a vida e tomar ações heroicas ou um herói que teve um momento de fraqueza?

O desfecho, tal como toda a aventura, é puramente nolittiano e muito diferente do “final feliz” clássico. A narrativa conclui-se com os sobreviventes discutirem que versão do que se passou nas colinas deve ser revelada quando regressarem ao forte Washakie, e como esse conhecimento vai afetar a reputação do capitão, dos familiares, dos restantes militares falecidos na batalha, e do exército. Revelar verdade ou mentir? É Tex, como líder da expedição, que toma a decisão, no mínimo polémica, mas que visa favorecer o aspeto humano, e impõe a versão a revelar, não sem antes criticar fortemente os Larrimer pelas suas opiniões.

“A flecha quebrada” ou “O preço da desonra[5]”, titulo com que foi publicada na Collezione Storica a Colori, tem apenas 172 pranchas e é a segunda aventura de Tex mais curta escrita por Sergio Bonelli. No entanto, e apesar de ser uma história que pode ser considerada “pequena” para os padrões nolittianos, é uma narrativa que representa muito bem a típica aventura do autor, pois inclui a maioria das particularidades e recursos estilísticos utilizados pelo próprio, faltando, talvez, a utilização mais frequente da narração silenciosa e a inclusão de referências a fatos ou a personalidades históricas para a imagem ficar completa.
Nota final

Guido Nolitta tinha um estilo narrativo e uma forma de contar histórias muito peculiar e que me agrada particularmente. A utilização frequente da ironia e comicidade, presente em quase todas as suas narrativas, a forma como misturava os diversos géneros literários, alguns aparentemente inconciliáveis, como o cómico e o terror, ou como criava suspense em torno de eventos ou dos responsáveis mantendo o leitor e o herói na ignorância, eram algumas dessas características, porventura as mais marcantes.

Em minha opinião não restam dúvidas de que o Tex bonelliano é muito diferente do nolittiano. Só pela análise de “A flecha quebrada” se percebem a maioria das diferenças existentes. Mas o facto de Sergio não ter conseguido recriar com êxito o estilo narrativo e o tipo de narrativas de seu pai não significa que o autor não tenha obtido sucesso ao escrever as aventuras de Tex Willer. Bem pelo contrário! Não obstante a pressão que sentia ao substituir o progenitor como salientou numa entrevista publicada na obra “Tex, tra la legenda e il mito” ao declarar: “A personagem criada pelo meu pai representou para mim uma aflição (…) sentia-me extremamente emocionado perante o pesado fardo de ter que substituir um grande autor (…) ”; Não obstante as dificuldades em seguir o seu estilo como confessou: “ (…) tive de trabalhar duramente na realização destas histórias, logo a partir daquele momento em que continuamente me questionava sobre a maneira em como elas seriam escritas pelo seu primeiro autor. Escrever Tex foi para mim muito difícil, seja pela dificuldade em reproduzir o carácter e o comportamento do protagonista, seja por ter que inventar aqueles diálogos (…) ”; A verdade é que Sergio superou todas as expetativas, tendo criado algumas das mais belas histórias de sempre, e uma versão alternativa do personagem que ainda hoje rivaliza com a versão do criador, pela melhor de sempre.



[1] “Caccia all`uomo”, edições 183 a185 TEX mensal italiano, Jan-Mar 1976, com desenhos de Fernando Fusco. No Brasil, “Caçada humana” publicada em TEX 68 e 69, TEX 2ª Edição 68 e 69, TEX COLEÇÃO 235 a 237 e TEX ED. HISTÓRICA 92.
[2] Nolitta escreveu mais 3 histórias de Tex entre 1993 e 1999, totalizando 19 aventuras do herói.
[3] No Brasil foi publicada na coleção TEX 167 e 168 e no TEX COLEÇÃO 314 e 315.
[4] Primeiro por os militares classificarem os confrontos com os índios conforme obtêm a vitória (utilizam “batalha”) ou saem derrotados (“massacre”). Segundo pela forma como o exército subjuga os povos indígenas à sua vontade, aproveitando-se das suas necessidades, para em troca de cobertores, carne seca e bugigangas, conseguir os seus intentos: neste caso entrar em território considerado sagrado pelos índios.
[5] “Il prezo de disonore” Titulo com que foi publicado em Tex Collezione Storica a Colori Nº108.

PS: Texto publicado na revista Clube Tex Portugal Nº 11 em Dezembro de 2019