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segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

HISTÓRIAS QUE DEVE LER ANTES DE AFIRMAR QUE NÃO GOSTA DE TEX – 1ª PARTE

Em Maio último, aproximando-se a data da publicação de mais um número da Revista do Clube Tex Portugal, neste caso o décimo segundo, e mais uma vez, à semelhança de outras ocasiões, encontrava-me sem ideias e sem tempo. A revista sai normalmente em junho, pelo que faltava cerca um mês para o Mário fechar a edição. Parece bastante tempo, no entanto sou bastante lento a escrever, e gosto de escrever textos longos, sobre uma história, um escritor ou desenhador, ou artigos de opinião. Assuntos que exigem muita pesquisa e análise de informação, para fundamentar as minhas opiniões e, consequentemente, tempo, que como referi era muito escasso. Perante este cenário restava-me duas opções: não escrever nada para esse número, ou, escrever um texto fora do meu registo habitual, mais curto, baseado na minha experiencia pessoal e que exigisse menos trabalho de bastidor. Ok, posso escrever um texto nesses moldes, pensei eu, mas sobre que assunto? Artur Coelho, que redigiu o texto A Lenda de Tex (Colecção Bonelli #1) resolveu o meu problema quando escreveu sobre Tex e o género western o seguinte: “...é um dos poucos exemplos a atrair público na cultura pop contemporânea que um género, o western, que foi imensamente popular nos anos 50… … Género que hoje apenas sobrevive como memória cultural, com o gosto popular afastado dos mitos da vida na fronteira do velho oeste… …Não sendo um personagem (bem como um género) que me atraiam particularmente,…”.


É inegável que o género western já não tem a popularidade dos anos 50! Quanto a este aspeto nada a dizer. Também é verdade que gostos não se discutem, no entanto, para se gostar é preciso conhecer, e para se poder afirmar veementemente que não se gosta de algo, neste caso de Tex, é necessário conhecer minimamente o personagem, as suas aventuras e o seu universo. É esse o propósito do texto que se segue, apresentar uma listagem de histórias que apresente o herói, os seus autores e as suas histórias, a quem não o conhece, mas também a quem leu apenas algumas histórias avulsas e não tem uma opinião fundamentada. Para os texianos da velha guarda, que tal como eu conhecem toda a vida editorial do personagem, as propostas de leitura que se seguem não deixam de ser uma excelente oportunidade para reler aquelas histórias que marcaram a nossa juventude.

HISTÓRIAS QUE DEVE LER ANTES DE AFIRMAR QUE NÃO GOSTA DE TEX – 1ª PARTE

Em formato de talão de cheques, mais precisamente 17 x 8cm, com 32 páginas mais capas, em que cada página incluía apenas uma tira, “Il totem misterioso”, a primeira história de Tex, criada pela dupla Giovanni Luigi Bonelli (argumento) e Aurelio Galleppini (desenhos), foi publicada em Itália em setembro de1948. Foi neste formato, conhecido por “striscia”, muito popular na velha bota no pós segunda guerra mundial, e nos anos que se seguiram, que as aventuras de Tex foram publicadas até 1967, originando 36 séries. O formato atual e conhecido como bonelliano, de 16cm x 21cm, com três tiras por página, somente surgiu em 1958, e até 1968 republicou todas as histórias anteriormente publicadas séries de “striscia”. A primeira história original publicada no atual TEX mensal italiano foi “La caccia”, no Nº 96 da coleção.

Capa do Nº1 de TEX em "Striscia"

Os argumentos nesta fase eram muito condicionados pelas poucas páginas de cada número[1], pelo que as tramas eram compostas por pequenos episódios, interligados, que no seu conjunto completavam a aventura. Quanto à arte, o desenhador tinha de desenhar e arte finalizar as 32 tiras e uma capa, em cada semana. Produção absolutamente fantástica e impossível de atingir nos dias de hoje em que a maior parte dos desenhadores não o consegue, nem sequer, mensalmente!

Itália, passados setenta e dois anos desde o primeiro número, TEX mudou drasticamente! Primeiro o personagem: inicialmente foragido, depois Ranger[2], Chefe e Agente indígena dos índios Navajos (que o conhecem por Águia da Noite), viúvo de Lilyth (índia Navajo que lhe salvou a vida), e pai de Kit Willer. Tex é tudo isso: várias facetas numa única personagem! Depois as publicações: atualmente existem em circulação, neste país, diversas publicações para além da coleção principal que já ultrapassou as setecentas e vinte edições e que continua a apresentar-se no formato bonelliano, a preto e branco, incluindo aventuras normalmente longas que se prolongam por duas, três, e por vezes, quatro edições. Também a preto e branco são publicadas as coleções TEX WILLER[3], as aventuras de Tex quando era jovem, MAXI TEX[4], TEX MAGAZINE[5] e TEX ALBO SPECIALE[6].

Quanto às edições coloridas, nos últimos anos a SBE aderiu, finalmente, ao colorido na tentativa de ganhar novos leitores e novos mercados, e com esse objetivo, estão em publicação COLOR TEX[7] e TEX ROMANZI A FUMETTI[8].

Além das edições de originais já referidas, a editora publica uma panóplia de coleções, nos mais diversos formatos, a preto e branco e colorido, que republicam, não só histórias selecionadas, (álbuns luxuosos), mas também coleções completas como TUTTO TEX, TEX NUOVA RISTAMPA E TEX CLASSIC.

No Brasil o cenário não é muito diferente pois existem uma série de coleções que apenas publicam histórias originais, como TEX[9], TEX ALMANAQUE[10], TEX ANUAL[11], MAXI TEX[12], TEX GIGANTE[13] e TEX WILLER[14]. Ainda coleções de originais, mas coloridas, estão em publicação TEX GRAFIC NOVEL[15] que segue a italiana TEX ROMANZI A FUMETTI e o TEX ESPECIAL COLORIDO[16] que replica o original italiano COLOR TEX.

Também no que diz respeito a republicações o cenário brasileiro é muito semelhante ao italiano, existindo disponíveis mais de meia dúzia de coleções que republicam diferentes fases da vida editorial do personagem: TEX COLEÇÃO, TEX EDIÇÃO HISTÓRICA, TEX OURO, TEX PLATINUM, AS GRANDES AVENTURAS DE TEX, SUPERALMANAQUE TEX e TEX EM CORES.

Perante os milhares de edições, as centenas de aventuras, e as dezenas de coleções disponíveis, é necessário ser muito criterioso nas histórias a recomendar, porque existem histórias muito datadas e ingénuas, principalmente as publicadas nos primeiros anos, mais dedicadas à gama infanto-juvenil, e uma má primeira impressão pode criar falsas conclusões.

Tendo isto em conta, e que não é razoável apresentar uma seleção que contemple os setenta e dois anos de vida editorial do personagem, a seleção que apresento é extraída do período de maior sucesso, aquele que muitos, entre os quais eu me incluo, consideram a fase de ouro[17]. Adicionalmente, para que a seleção seja representativa desse período, procurei que os principais artificies, argumentistas e desenhadores, tivessem pelo menos uma aventura selecionada. Para mostrar a complexidade do universo texiano, procurei ainda incluir alguns dos principais personagens secundários, quer amigos quer inimigos, e, por fim, inclui vários tipos de narrativas e géneros, que fogem ao western típico, procurando demonstrar que Tex é muito mais que um western.

Nesta fase, de cerca de duas décadas, as aventuras foram todas escritas por apenas três argumentistas: G.L. Bonelli, todo o período e a solo entre 1964 e 1976, Sergio Bonelli, o seu filho que assinava as suas histórias como Guido Nolitta, entre 1976 e 1985, e Claudio Nizzi[18] que escreveu apenas três histórias entre 1983 e 1985. Estes três escritores produziram dois tipos de herói e narrativa: As aventuras escritas por G.L. Bonelli e C. Nizzi que se enquadram no Tex bonelliano e as aventuras escritas por G. Nolitta que criou uma versão alternativa do personagem, que podemos chamar de Tex nolittiano.

Prancha de Ticci
O Tex bonelliano[19] - “herói clássico, que muito raramente tem dúvidas, que identifica os vilões com um simples olhar, um verdadeiro justiceiro que é simultaneamente juiz e carrasco, que não olha a meios para obter o que considera justo, mesmo que tenha de violar as leis para o conseguir. Um Tex que é quase infalível nas suas deduções, que parece indestrutível, quase um super-herói, que enfrenta inúmeros fora-da-lei sem ser ferido. Para Bonelli pai as personagens não possuem densidade psicológica, tudo é preto e branco, existindo uma clara separação entre bons e maus. Nas suas narrativas[20], Tex apresenta-se normalmente acompanhado pelos seus “pards[21]”, são lineares, em que tudo é esclarecido, sem pontas soltas, não existindo espaço para a comicidade[22] e para o humor. Excetuando as histórias em que é introduzido o género fantástico, a maioria das suas tramas poderão ser consideradas puro western”.

O Tex nolittiano[23] - “personagem moderno, menos ousado e arrogante, dependente de outros, da sorte ou destino, que duvida das suas capacidades, que erra nas suas avaliações e deduções, que é surpreendido frequentemente pelos seus inimigos, que por vezes falha nos seus compromissos e objetivos, e que por vezes é derrotado e sofre perdas - circunstancias em que se revela incapaz de proteger os seus amigos ou os que estão à sua guarda. Mas é também um protagonista mais realista e calculista nos momentos de perigo, que pondera os riscos e é capaz de fazer pactos com os inimigos. O Tex nolittiano é ainda mais bem-humorado, sarcástico com os inimigos e adversários e brincalhão com os parceiros, mais introspetivo nas suas deduções, capaz de demonstrar sentimentos como raiva, frustração ou indignação. (…) Quanto às histórias idealizadas por Nolitta são muito mais de que western puro! A sua habilidade para a mistura dos diversos géneros literários na mesma narrativa e a sua atração pela comicidade, elemento indispensável nas suas tramas, assim como suspense, torna-as difíceis de classificar. São por norma mais complexas, imprevisíveis, repletas de volte-faces, com maior dimensão psicológica e dramatismo, repletas de mistério e tensão em que o autor inclui pequenos episódios quotidianos para alternar ou quebrar os ritmos narrativos. O herói apresenta-se normalmente sozinho ou acompanhado por apenas um dos seus parceiros, os personagens secundários têm personalidade, dificilmente classificados como bons ou maus, os desfechos, devido ao seu estilo narrativo de esconder os factos do leitor, são interessantes e por vezes surpreendentes.”.

Relativamente aos desenhadores, foram vários os artistas que deram o seu contributo nesta fase, alguns deles apenas como desenhadores fantasma, que só viram os seus créditos reconhecidos muito à posterior, nas reedições, como Francesco Gamba, Pietro Raschitelli ou Virgilio Muzzi, que efetuavam trabalho a lápis em vinhetas, ou pranchas, ou arte-finalizavam o trabalho do desenhador que assinava a história. Muzzi acabou por ser um caso muito particular, pois além de ter trabalhado como desenhador fantasma, acabou por assinar diversas histórias mas sempre com o rosto do herói a ser desenhado por Galep.

Ilustração de Muzzi

Quanto a desenhadores efetivos na série, que desenharam histórias completas, foram apenas seis. Mas comecemos pelo criador gráfico, Aurelio Galleppini, ou Galep como assinava os seus trabalhos e ficaria conhecido no mundo dos fumetti, com uma dedicação ao personagem de uma forma quase exclusiva, até ao seu falecimento em 1994. Nos primeiros anos, Galep apresentava um traço muito simples, pouco detalhado e por vezes incaracterístico, fruto de trabalhar na série, à noite, depois de um dia inteiro de dedicação à série principal, Occhio Cupo, da obrigatoriedade de criar, semanalmente, 32 tiras mais a capa, e da utilização frequente de diversos desenhadores fantasma[24] para poder cumprir os prazos, mas que acabavam por descaracterizar a sua arte.

Após o cancelamento da série Occhio Cupo, e principalmente, após a entrada de Guglielmo Letteri para a série que permitiu a Galep dividir a responsabilidade da criação gráfica das histórias com outro desenhador, o seu traço e a qualidade dos seus trabalhos melhoraram substancialmente, apresentando então um traço simples, agradável, mas bastante detalhado e personalizado, com cenários quase sempre presentes. Nos últimos anos da sua vida, afetado por um problema grave de visão que o deixou quase cego de uma vista, Galep continuou a trabalhar, mas a qualidade do seu trabalho já não era a mesma, sendo visíveis os erros de perspetiva, ou as falhas de proporção de objetos, do corpo humano ou de animais, como por exemplo nos cavalos.

Vinheta de Galep

Galep, além de ser responsável pela criação de cerca de duas mil capas para todas as séries de Tex, é o desenhador com o maior número de pranchas publicadas, ultrapassando as vinte mil, sendo também o desenhador de Tex com o maior número publicado num único ano: 783 pranchas em 1965! 

Letteri, o segundo desenhador a criar graficamente uma aventura completa de Tex, é também o segundo com maior numero de pranchas desenhadas, ultrapassando a marca das 11000, o criador gráfico de um dos personagens mais carismáticos da série, o Bruxo Mouro, e o desenhador da história mais longa com 586 páginas, Ritorno a Pilares[25]. Desenhador que se especializou nas histórias “estranhas”, as que “fogem” ao western tradicional e que incluem o sobrenatural, o mistério ou o terror, mas também as que se desenrolam em zonas áridas ou que envolvem mexicanos ou seitas chinesas. Possuidor de um traço que alguns acusam de falta de dinamismo, mas muito limpo, elegante, detalhado e facilmente identificável, com uma interpretação do protagonista muito sorridente e carismática. Faleceu em 02 de Fevereiro de 2006, com 80 anos de idade, 42 anos dos quais dedicados a desenhar Tex Willer.

Vinheta de Letteri

Giovanni Ticci, nascido em Siena a 20 de abril de 1940, foi o terceiro que se seguiu no que diz respeito à produção gráfica de histórias completas com a aventura, “Vendetta Indiana”, publicada pela primeira vez na série RODEO, no formato de talão de cheques, no inicio de 1967. Fruto da sua experiencia no mercado internacional, principalmente o americano, para onde produziu histórias de faroeste e ficção com seu grande amigo e mestre, Alberto Giolitti, (Gilbert), Ticci, fortemente influenciado por este, e pelo tipo de desenho produzido no mercado americano, entrou na série de uma forma fraturante, apresentando pranchas belíssimas, carregadas de detalhes que transmitiam sensações de movimento e profundidade, graças ao seu traço inovador para a época, limpo, realista e dinâmico, e à sua capacidade de desenhar com igual maestria, dos mais diversos ângulos e enquadramentos, os mais diversos ambientes e cenários.

Vinheta de Ticci

Atualmente, com oitenta anos de vida - cinquenta e dois a desenhar o personagem - Ticci é o desenhador em atividade com o maior numero de pranchas desenhadas, tendo ultrapassado a marca das 7000 pranchas, mas o seu estilo alterou-se profundamente, o seu traço foi simplificado, apresentando-se mais “sujo” e rabiscado, com menos detalhe e menos profundidade, continuando no entanto a produzir belíssimas pranchas, com o “seu” Tex a continuar a ser utilizado como modelo para os desenhadores mais novos.

Erio Nicolò começou por trabalhar em parceria com Galep, o seu primeiro trabalho, “Dramma nell prateria”, foi publicado na série NEBRASCA em julho de 1964, mas somente cinco anos depois vê publicado, na série normal de Tex, uma história inteiramente por si desenhada: “La paga di giudas”. Possuidor de um traço suave, límpido, agradável, que muitos consideram “romântico”, mas também singular e inconfundível, o “seu” Tex é menos corpulento e mais humano, os personagens apresentam feições agradáveis e as mulheres são belíssimas. Faleceu em 1983, com apenas 63 anos de idade, deixando como obra 23 histórias de Tex, sendo que uma delas é conhecida como uma das obras-primas de G. L. Bonelli: “l grande intrigo”.

Vinheta de Nicolò

Fernando Fusco foi o desenhador que se seguiu com a aventura “L'idolo di emeralddo”  escrita por G.L. Bonelli, publicada no Nº 168 da série mensal, em 1974. Detentor um traço agressivo, nervoso, algo rabiscado, e por vezes caricatural, que não deixava ninguém indiferente, logo na primeira aventura deixou a sua marca, apresentando um Tex diferenciado. Apesar de serem visíveis algumas semelhanças com o Tex de Ticci, o “seu” era mais agressivo, irónico e determinado. Nas histórias seguintes completou a sua interpretação do herói tornando-o o mais corpulento das interpretações efetuadas por todos os desenhadores desta fase. Retirado em 2010 para se dedicar a outra das suas paixões, a pintura, continua a ser o quarto desenhador com mais pranchas desenhadas do personagem, com quase sete mil, logo a seguir a Galep, Letteri e Ticci. Faleceu a 10 de Agosto de 2015 com 86 anos de idade.

Vinheta de Fusco

Para terminar o leque dos desenhadores, Vicenzo Monti, cujo traço se confunde como traço do seu grande amigo e colega Ticci, no qual se inspirou fortemente, sendo as diferenças mais notórias, o traço mais espesso e o menor dinamismo nas cenas. Monti, que entrou para a série em 1982, teve uma pequena contribuição nesta fase, desenhando apenas três histórias [26].

Apresentado o herói, definidos os critérios de seleção, apresentados os principais responsáveis do sucesso no período selecionado, resta apresentar as propostas de leitura. São dezasseis aventuras que recomendo, cerca de 15% das histórias produzidas neste período, ordenadas pela data de publicação da coleção mensal italiana de TEX, com indicação do argumentista, do desenhador, e das coleções brasileiras onde podem ser lidas. Apreciem!

TEX Nº 40  2ª Edição (Brasil)
El Morisco – TEX 101 – 103 (Mar - Mai 1969), Argumento de G.L. Bonelli e arte de G. Letteri. No Brasil: O Bruxo Mouro (TEX 40-42; TEX 2ED 40-42; TXC 146-149; TEH 57).

Sinopse: Na fronteira com o México, após investigarem um misterioso desaparecimento de armas que envolveu mortes atrozes de suspeitos envolvidos, e a descoberta de um estranho amuleto, Tex e Carson encontram-se em Pilares com o Bruxo Mouro.

Na casa do Bruxo, os dois parceiros rapidamente percebem que o caso do desaparecimento das armas e o caso que levou o amigo a chama-los estão diretamente ligados, com o Bruxo a fornecer diversas informações relevantes para os casos, a esclarecer o que representa o misterioso amuleto e o mortal segredo que ele transporta.

Decididos a desvendar todos os mistérios que envolvem este caso, Tex e Carson, aliam-se aos Guardas Rurais Mexicanos e penetram na Serra Encantada, onde vão enfrentar o misterioso Senhor das Pedras, o bando de El Dorado, e uma tribo descendente de Astecas, liderada por Tulac, que pretende recuperar a glória dos seus antepassados e expulsar os Mexicanos do que consideram o seu território.

Comentário: “O Bruxo Mouro” é tudo menos um western, sendo essa a principal razão, para além de ser uma belíssima história, para a inclusão nesta seleção. Esta narrativa enquadra-se no tipo de histórias alternativas, ou mesmo “estranhas”, bastante frequentes no universo texiano, que incluem o mistério, paranormal, sobrenatural, horror ou a ficção, neste caso particular a aventura é uma mistura de western e o fantástico.

A participação do Bruxo Mouro, ou El Morisco, é a segunda razão para escolha desta aventura! Personagem criado por G. L. Bonelli em 1967, um dos maiores amigos de Tex e um dos personagens mais fascinantes e emblemáticos do universo texiano, que aparece normalmente como um dos protagonistas neste tipo de histórias. Egípcio de nascimento, é um estudioso e um cientista, que possui conhecimentos nas mais diversas áreas, como medicina, egiptologia, botânica, zoologia, das escrituras antigas e das ciências ocultas, etc.

A escolha desta aventura não agradará certamente a todos, mas cumpre os principais objetivos: Mostrar que as aventuras de Tex são muito mais do que um western e apresentar um dos principais personagens secundários do universo!

TEX Ed. Histórica (Brasil)
Il ritorno del Drago – TEX 109 – 113 (NOV 1969 – MAR 1970), Argumento de G.L. Bonelli e arte de G. Letteri. No Brasil: A volta do Dragão (TEX 85-87; TEX 2ED 85-87; TXC 156-160; TEH 61).

Sinopse: Em Texas City, os Rangers Tex e Carson, ao investigarem um caso de tráfico de ópio que já custou a vida a cinco agentes, descobrem o envolvimento de uma organização criminosa que julgavam ter destruído num passado recente: a seita chinesa conhecida por Dragão Negro.

Os dois amigos, juntamente com Kit Willer e Jack Tigre, ao seguirem uma pista deixada pelo último Ranger a investigar o caso, o falecido Fred Bolton, envolvem-se numa verdadeira guerra com a seita que controla as casas de fumo e o tráfico de ópio e domina, através do medo e do terror, toda a comunidade chinesa de Texas City e Galvestown.

Após vários confrontos em que sai derrotado, nos subterrâneos que lhe servem de esconderijo, o Dragão Negro não consegue destruir totalmente os documentos que comprometem a organização e tem um gesto que permite a Tex identifica-lo, e, desta forma, desmantelar definitivamente a seita. Contudo, a eliminação da seita trata-se apenas de uma pequena vitória! Os diversos nomes parcialmente destruídos pelo fogo, encontrados num caderninho que o Dragão tentou destruir, assim o comprovam! A destruição da organização está apenas no princípio e a próxima pista passa por um tal de …navides, de Hermosillo, México.

Comentário: Aventura típica do universo texiano mas que não se enquadra no western típico: O tráfico de droga, as organizações criminosas e secretas, (neste caso uma seita chinesa), e os malefícios que provocam nas comunidades, em que a grande maioria dos cidadãos são honestos e apenas procuram uma vida melhor, são o pano de fundo desta fantástica aventura magistralmente desenhada por Letteri.


Edição livrarias (Itália)
Sulle piste del Nord – TEX 121 – 124 (NOV 1970 – FEV 1971), Argumento de G.L. Bonelli e arte de G. Ticci. No Brasil: A cruz trágica (TEX 50-52; TEX 2ED 50-52; TXC 170-173; TEH 65).

Sinopse: Em resposta a um telegrama do capitão Jim Brandon, da Policia Montada Canadense, Tex, o seu filho Kit, Carson, e Jack Tigre, deslocam-se à região dos cem lagos para ajudar a esclarecer seis misteriosos homicídios de homens brancos, encontrados num lago, amarrados numa cruz cravejada de símbolos indígenas, mortos por flechas negras.

No decorrer das investigações o grupo é vítima de vários atentados organizados por homens extremamente poderosos e influentes na comunidade, sendo que num deles, Kit Willer é capturado vivo pelos índios. Com a vida do seu filho em perigo, Tex e restantes elementos do grupo, reforçados com o capitão Brandon e três soldados, vão entrar na floresta, e no território indígena, com o objetivo de impedir que Kit se transforme no sétimo homem branco a ser encontrado morto, amarrado numa cruz, vítima de uma flecha negra.

Comentário: Apesar de a ação decorrer no Canadá, “A cruz trágica” trata-se um western puro, com a inclusão de diversos elementos típicos característicos do género: O comboio, o tiroteio na cidade, a luta no saloon, a presença dos índios, dos soldados, dos traficantes de armas, dos caçadores de peles etc. Mas é muito mais do que isso, é um trama complexo que aborda assuntos atuais como tráfico de influencias, abuso de poder e opressão dos mais fracos.

A destacar também a participação de Jim Brandon, um dos grandes amigos de Tex, personagem que teve a primeira aparição como simples sargento no Nº 10 da série mensal e que, desde então, tem sido presença assídua em aventuras ambientadas no seu país, neste caso já como capitão.

Com uns desenhos fantásticos de Ticci, a terceira história de Tex com a sua assinatura, “A cruz trágica”, justamente classificada como uma das melhores histórias de Tex por uma grande maioria dos admiradores do personagem, é uma aventura de leitura obrigatória não só para todos os que pretendem conhecer o herói mas também para todos os que se dizem fãs.


TEX NUOVA RISTAMPA
(Itália)
Il figlio di Mefisto - TEX 125 - 128 (MAR – JUN 1971), Argumento de G.L. Bonelli e arte de A. Galleppini. No Brasil: O filho de Mefisto (TEX 101 - 103; TEX 2ED 101 - 103; TXC 174 - 177;TEH 67).

Sinopse: Nas ruinas do castelo do barão Samedi, onde se encontra soterrado vivo, Mefisto utiliza os seus poderes sobrenaturais e consegue contactar e convencer o seu filho Blaky a vingar a sua morte antes de ser devorado vivo pelos ratos que infestam as ruinas.

Seguindo as instruções de seu pai, Blaky viaja para a Florida e liberta Loa, a sacerdotisa vudu aliada de Mefisto, que se encontrava prisioneira dos Seminoles, e inicia o estudo dos livros secretos do progenitor, adquirindo poderes sobrenaturais ao ponto de conseguir matar os seus inimigos à distância.

Algum tempo depois, Blaky, que alterou o seu nome para Yama, o deus hindu da morte, começa a cumprir o que prometeu a Mefisto atacando seus inimigos: primeiro Yampas, o chefe dos Seminoles, e posteriormente Tex Willer e os seus amigos. No entanto, não obstante todos os poderes sobrenaturais que têm à sua disposição, existe algo que o impede de atingir Tex e os seus amigos diretamente, algo que ele não consegue compreender e que pode colocar em causa a sua vingança.

Comentário: Como já referi, o universo texiano inclui diversas histórias que apelidei de “estranhas” devido ao facto de estarem completamente desenquadradas do género western. “O filho de Mefisto” é mais uma dessas histórias. Narrativa que se pode enquadrar no género terror e sobrenatural, é uma história de ódio e vingança protagonizada por Mefisto e o seu filho Yama, magos, com poderes sobrenaturais, conhecedores da magia negra e de rituais satânicos, inimigos mortais Tex e dois dos mais importantes personagens do universo texiano.


SUPERALMANAQUE TEX
(Brasil)
Il grande intrigo - TEX 141 - 145 (JUL – NOV 1972), Argumento de G.L. Bonelli e arte de E. Nicoló. No Brasil: A grande intriga (TEX 107 - 110; TEX 2ED 107 - 110; TXC 193 - 198; TEH 73 – 74; SAT 01).

Sinopse[27]: Vítima de uma bem orquestrada intriga, Tex é acusado e condenado a vinte anos de prisão, na penitenciária de Vicksburg. Não satisfeito com a condenação, um misterioso personagem, que ambicionava apoderar-se das jazidas de ouro e prata, existentes na reserva Navajo, tenta por todos os meios livrar-se daquele que considera ser o único obstáculo para a realização dos seus intentos. As tentativas para eliminar o agente indígena sucedem-se vertiginosamente, umas a seguir às outras. O fracasso de cada uma, leva o homem na sombra a planear uma nova, com novos elementos. Durante um terço da história, Tex e os seus pards limitam-se a reagir, impotentes para contra-atacar. Somente quando Carson conhece Clem, o homem que lidera os índios que caçam sem piedade os fugitivos da penitenciária, surge a oportunidade de descobrir os conspiradores.”

Comentário: História longa, 512 páginas, complexa, estruturada, que aborda assuntos contemporâneos como abuso de poder e corrupção, em que os heróis enfrentam um inimigo poderoso, na sombra, que desfere ataques como se estivesse a movimentar as peças num jogo de xadrez e cuja identidade só é revelada nas últimas páginas.

Mais uma obra-prima de G.L. Bonelli, em minha opinião, “A grande intriga” é uma das dez melhores histórias de sempre, pelo que considero-a de leitura obrigatória para todos os que se interessam pelo personagem.

(CONTINUA)

Principais referencias:

Tex@uBC - uBC Fumetti

ComicsBox :: Database di Comics e Fumetti

DIME WEB

Sergio Bonelli Editore

Albi a striscia di Tex - Wikipedia

Albi di Tex - Wikipedia

Legenda:

              TEH - Tex Edição Histórica

              TEX 2E - Tex 2ª Edição

              TXC – Tex Coleção

              TXO - Tex Ouro)

              ATX - Almanaque Tex

              TEF – Tex Especial Férias

              TAV – Tex e os Aventureiros

              SAT – Superalmanaque Tex



[1] Convertidas as 32 tiras para o formato atual, correspondem apenas a dez páginas e duas tiras. Muito pouco se considerar-mos que uma aventura de Tex, publicada no TEX mensal, tem no mínimo 110 páginas.

[2] Em algumas traduções encontramos a expressão “Guarda Rural”.

[3] Periodicidade mensal, formato bonelliano com apenas 64 páginas, inclui histórias em continuação que podem prolongar-se por 4 ou 5 edições.

[4] Periodicidade anual, formato bonelliano, inclui aventuras longas e completas, normalmente com mais de 290 páginas.

[5] Periodicidade anual, formato bonelliano com 176 páginas, inclui duas histórias completas, uma das quais muito curta, apenas 32 páginas).

[6] Periodicidade anual, formato 21cmx29,7cm, com 240 páginas, inclui uma história completa.

[7] Periodicidade semestral, formato bonelliano, colorido com 160 páginas, que alterna a publicação entre uma e cinco histórias curtas (32 páginas).

[8] Periodicidade semestral, formato franco-belga, colorido com 48 páginas e uma história completa.

[9] Periodicidade mensal, formatinho a p&b com 114 páginas, publica histórias retiradas da coleção TEX mensal italiana.

[10] Periodicidade anual, formatinho a p&b, atualmente com 176 páginas, inclui histórias retiradas do TEX MAGAZINE. Até ao Nº 48 as histórias eram, maioritariamente, retiradas da coleção italiana, entretanto descontinuada, ALMANACCO DEL WEST.

[11] Periodicidade anual, formatinho a p&b, inclui aventuras longas e completas extraídas da coleção italiana MAXITEX.

[12] Periodicidade anual, formatinho a p&b, inclui aventuras longas e completas extraídas da coleção italiana MAXITEX.

[13] Periodicidade anual, formato 21cmx29,7cm, com 240 páginas, inclui histórias completas extraídas da coleção italiana TEX ALBO SPECIALE.

[14] Periodicidade mensal, formato bonelliano com apenas 64 páginas, inclui histórias em continuação que podem prolongar-se por 4 ou 5 edições.

[15] Periodicidade semestral, formato franco-belga, colorido com 48 páginas.

[16] Periodicidade semestral, formato bonelliano, colorido com 160 páginas, que alterna a publicação entre uma e cinco histórias curtas (32 páginas).

[17] Como idade de ouro considera-se o período decorrido entre meados da década de sessenta até meados da década de oitenta. Em minha opinião, para ser mais preciso, e para justificar a seleção de histórias, esta fase inicia-se com a primeira aventura integralmente desenhada por Letteri, o segundo desenhador a desenhar uma história completa do personagem: “Piombo caldo”, publicada no final de 1964, em striscia, na série Nebraska. Também interpretação pessoal, a fase conclui-se com a saída de Nolitta, no Nº 292 da série mensal publicado em Fevereiro de 1985: “Uno sporco imbróglio”.

[18] Após a saída de Nolitta em 1985, Nizzi tornar-se-ia o principal escritor da série de Tex, papel que desempenha até 2010, ano em que Mauro Boselli o substituiu como argumentista principal.

[19] Definição do Tex bonelliano extraída do texto: A OUTRA FACE

[20] Na fase de ouro do personagem.

[21]Pards” ou parceiros: o Ranger Kit Carson, Kit Willer o seu filho, e Jack Tigre um índio Navajo.

[22] Exclui-se os diálogos provocadores entre Tex e seus “pards”, especialmente com Carson.

[23] Definição do Tex nolittiano extraída do texto: A OUTRA FACE

[24] Desenhadores como Guido Zamperoni, Mario Uggeri, Lino Jeva, Pietro e Francesco Gamba e Virgilio Muzzi.

[25] “Ritorno a Pilares”, a aventura mais longa de Tex foi escrita por G. Nolitta e publicada em 1993 na série regular italiana nos números 387 a 392.

[26]Un mondo perduto” é uma das três histórias desenhadas por Monti, no entanto, Monti apenas a concluiu. A história foi iniciada por Nicolò que viria a falecer antes de a concluir sendo Monti o escolhido a terminar. 

[27] Sinopse extraída do texto: EVOLUÇÃO OU PERDA DE IDENTIDADE??

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

A FLECHA QUEBRADA - TÍPICA AVENTURA NOLITTIANA

Nota introdutória

A aventura intitulada de “Caçada humana[1]” publicada em Itália no ano de 1976, na coleção mensal de Tex, tornou-se um marco histórico na vida editorial do personagem. Pela primeira vez foi publicada uma história de Tex Willer escrita por outro argumentista que não Gian Luigi Bonelli, que até então, com 67 anos de idade, havia escrito a totalidade das narrativas publicadas nos 182 números da coleção.

Na verdade, não se tratou de uma situação planeada mas sim de uma emergência! Um ano antes, o criador do personagem sofreu uma queda ao praticar esqui, que associado à avançada idade, o forçou a reduzir o volume de trabalho, pelo que houve necessidade de encontrar outro escritor, que numa primeira fase o substituísse enquanto recuperava, e, posteriormente, com ele partilhasse a difícil tarefa de escrever as aventuras de Tex Willer.

Sergio Bonelli, o filho de Gianluigi, sob o pseudónimo de Guido Nolitta, foi o voluntário para suprir esta necessidade e responsável pela “heresia” de o substituir, e durante os 9 anos que se seguiram, pela criação de 16[2] histórias, em que procurou imitar a forma de contar histórias do progenitor para não descaracterizar o personagem e as suas aventuras. Todavia, e apesar de contar com a preciosa ajuda do seu pai em determinadas cenas e diálogos, e apesar dos seus esforços em esconder o seu estilo narrativo, a verdade é que obteve um relativo sucesso, pois o seu herói e as suas histórias são muito diferentes das escritas pelo seu pai, como poderemos constatar na análise que se segue a uma das suas narrativas.
A flecha quebrada

No forte Washakie, Wyoming, enquanto aguarda com Kit Carson a caravana que transporta os mantimentos para os seus Navajos, Tex é persuadido por este e pelo comandante do forte, o major Stanton, a liderar uma pequena expedição às Blue Hills, em pleno território Sioux, com o objetivo de recuperar os restos mortais do capitão Richard Larrimer - morto um ano antes, juntamente com os vinte e cinco soldados e dois oficiais que compunham um destacamento do 5º de cavalaria.
O exército que tinha conseguido recuperar a maioria dos corpos dos militares falecidos, pouco tempo após a batalha, graças à assinatura de um tratado apressado em que cedeu aos Sioux, o território onde decorreu o confronto, já havia desistido de recuperar o corpo do capitão. No entanto, o surgimento de Tom Rampling – sargento que integrava o destacamento e tinha sido dado como morto – que recentemente recuperara a memória e que afirmava conhecer a exata localização do cadáver, bem como as pressões exercidas pelos familiares do capitão, forçaram o comandante do forte a autorizar a expedição, e a efetuar o pedido a Tex para a liderar. 

A entrada de qualquer expedição, sobre qualquer pretexto, no território dos Sioux, principalmente na zona das colinas, que passou a ser considerada sagrada para os índios após a batalha, já tinha sido recusada por Ongewa, chefe dos Sioux que os liderou na contenda com os soldados. Ainda assim, o major Stanton espera que Tex, devido ao seu prestígio junto dos povos indígenas devido ao facto de ser também Águia da Noite, o chefe dos Navajos, possa demover Ongewa dessa decisão.
A expedição liderada por Tex e composta por Donald e Steve Larrimer, irmão e filho do capitão falecido, cinco soldados e o sargento Tom Rampling, desloca-se até à fronteira do território Sioux onde encontra as primeiras dificuldades, e onde Tex começa a demonstrar, aos restantes elementos do grupo, os motivos por ter sido escolhido como líder.

Este é o ponto de partida de “A flecha quebrada[3]”, publicada pela primeira vez em Itália no verão de 1982, nos números 261 e 262 da coleção mensal de Tex, com os títulos “La freccia spezzata” e “Le colline della paura”. Nesta primeira fase da história, o autor utiliza um ritmo narrativo lento, com as pranchas sobrecarregadas de cartuchos e diálogos, procurando inserir o leitor na aventura. Apesar disso já são visíveis marcas nolittianas, como a ironia que tanto aprecia e que está bem patente nas provocações entre Tex e Carson, e também nas que estes lançam ao major Stanton, quando este faz o convite a Tex para liderar a expedição, ou nas críticas que faz ao comportamento dos militares[4].

A destacar também forma como o autor se “livra” de Carson! Em contraposição de ideias com o seu pai, Nolitta prefere, claramente, narrativas com o herói a solo ou apenas acompanhado por um dos seus parceiros. Neste caso preferiu, visivelmente, a narrativa a solo, uma vez que coloca Carson fora da expedição, logo nas páginas iniciais, sobre o pretexto de esperar pelas carroças de mantimentos.

Aparentemente, a grande dificuldade que esperava Águia da Noite nesta missão era a obtenção do Saken dos Sioux, de autorização para entrar nas Blue Hills. Suposição que se revela completamente errada! Logo na fronteira do território dos Sioux, o espantalho com uma caveira humana envergando uma jaqueta do exército, e que marca a entrada no território, despoleta a indignação e o nervosismo entre os integrantes do grupo, forçando Tex a usar a força para acalmar os soldados. Mostrando-se conhecedor dos hábitos e costumes indígenas, Tex interpreta corretamente o sinal e cumpre o ritual, impedindo, desta forma, o ataque à expedição pelos Sioux que se encontravam escondidos no bosque próximo, e conseguindo que os índios o levem à presença de Ongewa. Falta no entanto convencer o saken dos Sioux, o que não aparenta ser fácil: fruto da vitória sobre os soldados, outras tribos de guerreiros juntaram-se aos Sioux pelo que as decisões são agora tomadas em concelho de chefes, e, Mahonga, o chefe dos Tetons, recusa a entrada dos brancos nas Blue Hills, ofendendo Águia do Noite apelidando-o de “falso amigo do povo vermelho”, arrancando-lhe do peito o símbolo da irmandade dos povos vermelhos. Como consequência desta ação violadora das leis da hospitalidade, Ongewa autoriza a realização de um duelo entre os dois, no círculo da morte, que Tex, apesar da sabotagem da machadinha efetuada pelo feiticeiro Skinpah, vence, poupando no entanto a vida a Mahonga.
Este trecho da narrativa é muito mais intenso, repleto de ação, em que Nolitta apresenta um Tex que demonstra capacidades de liderança, duro, implacável, impulsivo e que não têm dúvidas. Vemo-lo na forma como impôs a disciplina aos integrantes do grupo quando se aproximaram da fronteira do território dos Sioux, mas também no modo como venceu o duelo e como castigou Skimpah pela “brincadeira” na preparação da machadinha para o duelo. O herói que nos é apresentado nestas cerca de quarenta páginas foge um pouco ao padrão nolittiano e está bem mais próximo do herói clássico idealizado por seu pai.
Após o duelo com Mahonga, e obtida a permissão para entrar nas Blue Hills, as dificuldades da missão pareciam, novamente, estar ultrapassadas, mas Nolitta decide “complicar”, e introduz um novo elemento na narrativa: o elemento fantástico! É Ongewa quem alerta Tex sobre a existência de um espirito, que provocou a morte de três guerreiros na zona para onde se dirige a expedição, tendo provocado ferimentos graves em outros dois, que o descreveram como um ser metade homem metade lobo, ágil, forte, cruel como uma besta, e que parece defender o território de qualquer intrusão. O Espirito maligno das Blue Hills! A referência ao espirito é muito breve, limita-se a poucas vinhetas e o leitor, tal como o herói, rapidamente o esquecem.
A viagem para as colinas é marcada por duas trágicas mortes como consequência de dois incidentes, aparentemente acidentais. A queda fatal de Wood – um dos soldados – no trilho de acesso ao penhasco onde o grupo tinha decidido passar a noite, e a morte de Douglas – outro dos soldados – vítima de picada de uma cascavel que se escondeu na sua sacola. Entre os dois incidentes, Douglas acusou Peters – um terceiro soldado – de ser o responsável pela morte de Wood tendo sido forçado a calar-se por ação de Rampling. Presumivelmente para impor a ordem! E tentou, sem sucesso, falar a sós com Tex. Nenhuma destas situações deixaram Tex em alerta, nem mesmo quando, logo após ter sido picado pela cascavel, Douglas não permitiu que Rampling o tratasse, tendo-o apelidado de “maldito assassino”.

Tex só se apercebe que algo está errado quando Haig, um dos soldados sobreviventes, em conversa com Rampling, refere “ (…) não vai demorar muito a achar sua maldita caixa!”. O único objetivo da expedição é recuperar os restos mortais do capitão Larrimer, pelo que Tex - tal como o leitor - são completamente surpreendidos ao ouvirem falar em caixa. “Que caixa?” Questiona Tex, ou “Ei, espere aí! De que diabo de caixa está falando, Haig?”. Mas é tarde, muito tarde! Rampling aproveita a estupefação de Tex e coloca-o sem sentidos com uma coronhada.

As duas mortes, as situações em que ocorreram, e o comportamento de Wood, não teriam passado despercebidos ao Tex de Gianluigi. Mas o herói de Nolitta tem outras características, e este trecho da narrativa é bem demonstrativo do herói nolittiano: moderno, humano, que comete erros de avaliação e que se deixa surpreender. Ainda neste excerto podemos observar outra marca distinta do autor, esta no modo de contar histórias: a forma como “esconde” os eventos do leitor, só os revelando no momento em que o herói tem conhecimento dos mesmos - o complô orquestrado pelos soldados e a existência de uma caixa contendo o dinheiro das guarnições do norte que estes procuravam recuperar.

Com os Larrimer presos e o herói inconsciente vítima da coronhada aplicada por Rampling, Nolitta decide, finalmente, revelar a verdade sobre os acontecimentos que culminaram no massacre das Blue Hills. Começa por nos apresentar a versão de Rampling, num flashback, em que o próprio Rampling conta, aos restantes elementos do grupo, as razões que o motivaram a regressar ao local da chacina, o que realmente aconteceu na noite que antecedeu a batalha, e como e porquê o capitão Larrimer foi morto.

Já com Tex recuperado, Rampling termina a sua versão explicando como tinha decidido executar, sem sucesso, o plano atribuído por ele ao capitão. - Logo após esconder a caixa com o dinheiro fora surpreendido e ferido pelos Sioux que o deixaram como morto.
Após terminar o relato dos acontecimentos da fatídica noite, o sargento confessa, também, a utilização dos Larrimer e do Chefe dos Navajos como instrumentos para a recuperação do dinheiro. As revelações sucedem-se, com Rampling a desdizer a versão inicial, de ser conhecedor do local exato da localização do corpo do capitão, e a assumir a responsabilidade das mortes de Wood e Douglas por se recusarem a participar na intriga, assim como a intenção de não deixar testemunhas.

Desde que o grupo chegou ao local da batalha que se sente a tensão no ar, a paisagem é sinistra, tétrica, como se existisse algo sobrenatural no local, o uivo dos coiotes torna o local ainda mais assustador e Tex decide aproveitar esse ambiente para deixar os soldados ainda mais nervosos, revelando-lhes o que Ongewa lhe tinha dito quando autorizou a expedição: que algo muito estranho habita a região! Inclui na descrição palavras como “Fantasmas, espíritos malignos e feitiçarias” para potenciar o medo nos integrantes do grupo.
Nesta fase da aventura Nolitta decide acelerar o ritmo narrativo, os acontecimentos, agora, sucedem-se uns a seguir aos outros, sem pausas, e os volte-faces também. Aproveitando a distração dos soldados provocada pela recuperação da caixa, e pelo estado de nervosismo em que se encontravam, devido ao coiote que não para de os atormentar com os seus uivos lamentosos, Tex consegue libertar-se e liquidar os dois soldados restantes, no entanto, quando parecia que ia retomar o controlo da situação, Rampling faz Steve refém ameaçando-o com uma faca no pescoço forçando Tex a render-se. Segue-se um novo volte-face, pois o sargento nem tem tempo de retomar o controlo da situação. Surgido de uma moita próxima, o Espirito das Blue Hills neutraliza Rampling com uma pancada de machadinha na cabeça, e mantem Tex sobre ameaça de uma pistola.

Afinal não se tratava de uma superstição indígena! Armado com uma simples machadinha, trajando peles e envergando uma mascara de lobo, o Espirito das Blue Hills é bem real e surgiu no momento oportuno para retirar o protagonista de uma situação que parecia perdida, provocando o terceiro volte-face em pouquíssimas pranchas.
Nolitta parece querer continuar a “brincar” com o leitor! Mantendo Tex sobre a ameaça do revólver, O Espirito das Blue Hills retira a mascara e revela a sua identidade, surpreendendo todos, inclusive o sargento Rampling que se recusa a acreditar que o capitão Larrimer, que ele julgava ter morto, esteja vivo e seja o responsável pela destruição dos seus planos.

A entrada em cena do Espirito das Blue Hills salvando o herói de uma situação, aparentemente, sem saída possível, e a forma como o autor “escondeu” a existência do “Espirito”, até ao momento da sua aparição, levando o leitor a pensar que não passava de um mito, são claramente marcas nolittianas.

Perante as inúmeras questões de Donald, que não consegue compreender as atitudes do irmão, Richard conta sua versão dos fatos, e o porquê de ter permanecido nas Blue Hills encarnando o “Espirito”, confirmando a versão de Rampling que escondeu a caixa com o dinheiro dos pagamentos, e que tencionava recupera-la caso saísse vivo do local.

Os familiares do capitão ouvem incrédulos a sua versão, recusando-se a acreditar que o honrado capitão Larrimer, afinal não é muito diferente do sargento Rampling, e que ambos não passam de dois canalhas dispostos a matar por dinheiro. Quem é Richard Larrimer? É esta a questão que autor parece colocar ao leitor. Uma pessoa honesta, honrada, disposta a fazer sacrifícios uma vida inteira pela sua família e que num momento de grande tensão tem um momento de fraqueza, ou, um canalha e assassino que enquanto a vida lhe correu de feição foi capaz de disfarçar a sua verdadeira natureza até ao momento em que lhe surgiu a oportunidade para enriquecer? As dúvidas são imediatamente dissipadas! Assim que o capitão termina a sua versão, dispara dois tiros sobre o sargento Rampling, matando-o a sangue-frio, preparando-se para fazer o mesmo a Tex, eliminando desta forma a única testemunha que o poderia incriminar. Todavia, os gritos e os pedidos dos familiares do capitão para não o fazer, permitiram a Tex aproveitar-se da distração momentânea do capitão, desarma-lo e assumir o controlo da situação.

Com o herói com a situação controlada, e com a verdade sobre o que aconteceu nas Blue Hills esclarecida, poder-se-ia pensar que o desfecho estava próximo. Nada mais errado! Nolitta ainda têm mais questões para colocar ao leitor, pelo que recupera, para a ação, um inimigo de Tex que o leitor, provavelmente, já havia esquecido - Mahonga - e acrescenta mais cerca de 35 pranchas à narrativa, que vão baralhar, novamente, a questão de quem foi o capitão Larrimer e quem é o verdadeiro protagonista desta aventura.
Sentindo-se humilhado por ter perdido o duelo com Águia da Noite, Mahonga lidera um numeroso grupo de guerreiros no ataque aos poucos sobreviventes da expedição às colinas. Apesar das inúmeras baixas provocadas pelos tiros certeiros de Tex, a situação é desesperante e tudo leva a crer que o chefe índio irá conseguir os seus intentos. Mas eis que surge um novo volte-face com um protagonista inesperado: Richard Larrimer, o capitão ignóbil, ladrão e assassino.

O ataque liderado por Mahonga provoca dois feridos, Donald e Steve Larrimer, sendo que Steve é ferido com gravidade no ombro direito e necessita urgentemente de tratamento. Perante a necessidade de cuidados imediatos do seu filho, e percebendo que os índios se preparavam para atacar novamente, Richard é acometido pelo instinto paternal e decide envergar a mascara de lobo, e interpretar, novamente, e pela última vez, o papel do Espirito das Blue Hills, esperando que os supersticiosos índios se afastem das colinas e os deixem em paz. A ação heroica do homem, que pouco tempo antes assassinou o sargento Rampling, a sangue-frio, permite salvar os poucos sobreviventes do grupo e matar Mahonga, numa luta corpo a corpo, uma vez que os índios reagem como esperado e fogem assustados.
O leitor fica novamente baralhado pelos acontecimentos e reformula novamente a questão! Quem é Richard Larrimer? Um canalha capaz de sacrificar a vida e tomar ações heroicas ou um herói que teve um momento de fraqueza?

O desfecho, tal como toda a aventura, é puramente nolittiano e muito diferente do “final feliz” clássico. A narrativa conclui-se com os sobreviventes discutirem que versão do que se passou nas colinas deve ser revelada quando regressarem ao forte Washakie, e como esse conhecimento vai afetar a reputação do capitão, dos familiares, dos restantes militares falecidos na batalha, e do exército. Revelar verdade ou mentir? É Tex, como líder da expedição, que toma a decisão, no mínimo polémica, mas que visa favorecer o aspeto humano, e impõe a versão a revelar, não sem antes criticar fortemente os Larrimer pelas suas opiniões.

“A flecha quebrada” ou “O preço da desonra[5]”, titulo com que foi publicada na Collezione Storica a Colori, tem apenas 172 pranchas e é a segunda aventura de Tex mais curta escrita por Sergio Bonelli. No entanto, e apesar de ser uma história que pode ser considerada “pequena” para os padrões nolittianos, é uma narrativa que representa muito bem a típica aventura do autor, pois inclui a maioria das particularidades e recursos estilísticos utilizados pelo próprio, faltando, talvez, a utilização mais frequente da narração silenciosa e a inclusão de referências a fatos ou a personalidades históricas para a imagem ficar completa.
Nota final

Guido Nolitta tinha um estilo narrativo e uma forma de contar histórias muito peculiar e que me agrada particularmente. A utilização frequente da ironia e comicidade, presente em quase todas as suas narrativas, a forma como misturava os diversos géneros literários, alguns aparentemente inconciliáveis, como o cómico e o terror, ou como criava suspense em torno de eventos ou dos responsáveis mantendo o leitor e o herói na ignorância, eram algumas dessas características, porventura as mais marcantes.

Em minha opinião não restam dúvidas de que o Tex bonelliano é muito diferente do nolittiano. Só pela análise de “A flecha quebrada” se percebem a maioria das diferenças existentes. Mas o facto de Sergio não ter conseguido recriar com êxito o estilo narrativo e o tipo de narrativas de seu pai não significa que o autor não tenha obtido sucesso ao escrever as aventuras de Tex Willer. Bem pelo contrário! Não obstante a pressão que sentia ao substituir o progenitor como salientou numa entrevista publicada na obra “Tex, tra la legenda e il mito” ao declarar: “A personagem criada pelo meu pai representou para mim uma aflição (…) sentia-me extremamente emocionado perante o pesado fardo de ter que substituir um grande autor (…) ”; Não obstante as dificuldades em seguir o seu estilo como confessou: “ (…) tive de trabalhar duramente na realização destas histórias, logo a partir daquele momento em que continuamente me questionava sobre a maneira em como elas seriam escritas pelo seu primeiro autor. Escrever Tex foi para mim muito difícil, seja pela dificuldade em reproduzir o carácter e o comportamento do protagonista, seja por ter que inventar aqueles diálogos (…) ”; A verdade é que Sergio superou todas as expetativas, tendo criado algumas das mais belas histórias de sempre, e uma versão alternativa do personagem que ainda hoje rivaliza com a versão do criador, pela melhor de sempre.



[1] “Caccia all`uomo”, edições 183 a185 TEX mensal italiano, Jan-Mar 1976, com desenhos de Fernando Fusco. No Brasil, “Caçada humana” publicada em TEX 68 e 69, TEX 2ª Edição 68 e 69, TEX COLEÇÃO 235 a 237 e TEX ED. HISTÓRICA 92.
[2] Nolitta escreveu mais 3 histórias de Tex entre 1993 e 1999, totalizando 19 aventuras do herói.
[3] No Brasil foi publicada na coleção TEX 167 e 168 e no TEX COLEÇÃO 314 e 315.
[4] Primeiro por os militares classificarem os confrontos com os índios conforme obtêm a vitória (utilizam “batalha”) ou saem derrotados (“massacre”). Segundo pela forma como o exército subjuga os povos indígenas à sua vontade, aproveitando-se das suas necessidades, para em troca de cobertores, carne seca e bugigangas, conseguir os seus intentos: neste caso entrar em território considerado sagrado pelos índios.
[5] “Il prezo de disonore” Titulo com que foi publicado em Tex Collezione Storica a Colori Nº108.

PS: Texto publicado na revista Clube Tex Portugal Nº 11 em Dezembro de 2019